Acordava! Como o sol era brilhante quando abria a janela apenas para ver como estava o tempo, logo tornava a dormir. Infelizmente aquela mancha amarela ficava gravada na imensa escuridão de meus olhos fechados. Minha vida? Era uma garota bem tranqüila, no 3º ano do colégio é onde começa a minha história.
            - Três vivas para a perfeitinha! – Emily dizia quando eu chegava.
Isso já era de praxe, era assim que as pessoas me viam, como alguém que queria ser melhor do que todos, mas isso não era verdade, meus verdadeiros amigos sabiam que não tinha nada a ver uma coisa com a outra, eu só era uma pessoa esforçada, eu não me esforçava somente para os estudos, mas também era muito vaidosa, certinha, clássica, e isso nunca agradou as pessoas da minha classe social. Ah! Claro, nunca fui da parte rica da cidade, mas sempre era confundida com as garotas de lá, e isso por completa ignorância das pessoas.
Nessa época eu imaginava como era ser a primeira bailarina de alguma companhia famosa, Bolshoi, New York City Ballet, Royal Ballet ou Ópera de Paris. Todas as garotas que estiveram lá deixaram seus nomes marcados na história, desde as mais fracas até as mais fortes, não importa, é a coisa mais importante de se conseguir no mundo da dança, e era o que eu queria.
Eu dançava para viver, era o que eu mais queria na vida, a não ser arrumar uma pessoa que me amasse do jeito que eu era. Isso seria realmente difícil, era mais fácil afastar todas as pessoas de perto de mim. Mas eu não estava tão preocupada com isso no momento, eu queria dançar, dançar e dançar, ouvindo minha música clássica tão rica em notas, em movimentos, diferente do que qualquer outro derivado.
            Fisicamente? Bailarina é um tipo de físico, não existe outro que possa me definir, nenhuma garota que não dance balé pode ter o corpo para dançar balé. Claro que nem todas as garotas que dançam balé têm o corpo para dançar balé. Já as que o tem, você pode dizer que são bailarinas apenas de bater o olho. Eu era de estatura mediana, nem muito alta, nem baixa, com o objetivo de ser é claro sempre mais baixa que o bailarino, para sempre poder executar o pás-de-deux, perfeitamente. Para quem não sabe, o pás-de-deux é quando você faz um dueto... Bem, vocês sabem, os mais conhecidos são os do Lago dos Cisnes, Giselle, Quebra Nozes e Coppélia.
            No meu Oitavo ano na Escola Municipal de Bailado, o mais difícil e complexo, onde praticamente todas as suas amigas já te deixaram, só sobravam duas, ou no meu caso apenas uma, a escola decidiu apresentar ao final do ano o balé Giselle, era uma enorme responsabilidade. Apesar das outras garotas acharem que era apenas uma peça e que era simplesmente dançar para as pessoas, elas não entendiam o que aquilo significava para quem queria ser uma grande bailarina.
            - Bom dia! – A professora chegou com seus cumprimentos. – Estão escolhidos os papeis de cada bailarina.
            Todas as garotas do 8º ano se reuniram em um círculo para escutar os nomes tão esperados, dali sairia à bailarina principal, e o resto não importava.
            - Leonardo Sales! – Ela chamou bem alto. Do jeito que gostava de falar. – Parabéns, seu personagem será Albrecht.
            Para que toda a impressão das garotas? Garotos no balé é uma coisa difícil de ser encontrada, e talentos? Fica mais complicado ainda, ele era o único da sala, logo era o único talentoso, por isso eu não via à hora de entrar para uma grande companhia, lá eu veria os garotos se matando pelo papel, assim como nós, e não os ganhando de graça.
            - Larissa será Giselle! – Disse a Professora.
            - Qual delas? – Ambas perguntaram imediatamente.
            - Ellena.
            Larissa Ellena, claro, a melhor de todas as bailarinas da Escola Municipal de bailado, sempre foi, desde o primeiro ano que eu estive com ela, mas isso já fazia tanto tempo, na época ela não sabia dançar muito bem e nós tampouco. Porém, no 8º ano ela já conseguia fazer todos os 32 fouettes, e por esse motivo sempre conseguia o papel principal, acho que eu poderia ter conseguido o papel de Giselle, se não estivesse tão preocupada com os estudos, e mais com a dança.
            Depois que Alice nomeou todos os papeis, eu ainda não havia sido escolhida para nada, senti um medo de não estar dentro da apresentação, mas então recebi uma notícia que me deixou aliviada, uma notícia que me trouxe sossego. Recebi um papel, nada importante, porém recebi. E outra coisa que me alegrou foi quando a professora disse:
            -... E você também será a substituta de Larissa, caso alguma coisa acontecer a ela, dançará o papel no seu lugar, espero que não me decepcione.
            Quando cheguei a minha casa dei a notícia a meu pai. Falando em meu pai e minha família, tenho uma irmã mais nova, ela quer ser estilista, seguir os grandes passos das grandes marcas, Prada, Chanel, D&G e etc... Ela adorava tudo isso, andava sempre bem vestida, mesmo não tendo muito dinheiro ela dava um jeito de economizar em todas as outras coisas só para conseguir comprar uma ou outra peça de roupa das grifes famosas. Bem, minha mãe morreu quando eu tinha 4 anos, foi no parto de minha irmã, há ignorantes que digam que a culpa da morte de minha mãe tenha sido de Elisa, mas eu sei que uma coisa não se vincula a outra, e se tem alguma coisa que essa garota significava para mim, era o único pedaço restante de minha mãe no mundo.
            De qualquer forma, o ano passou-se mais rápido do que eu imaginei, e antes que eu pudesse dar conta, já estávamos ao seu fim. Tudo bem, todos falam isso, no início falamos que está demorado e no fim dizemos que foi rápido, mas para quem passou o ano estudando de manhã e correndo para a Escola de bailado a tarde, chegando a casa apenas a noite, a sensação de tempo era realmente menor. Ás vezes ficava imaginando se Polina Seminova ou Anna Pavlova tiveram todos esses problemas para chegar aonde chegaram, acho que sim, a escalada é difícil para qualquer um, só que muitas vezes não queremos admitir.
            Os ensaios estavam ficando cada vez mais complicados, bons tempos eram os anos passados e retrasados, tudo o que tínhamos que fazer era copiar as outras garotas e tudo sairia bem para todas, mas agora fora ter um papel que eu deveria copiar, ainda teria que decorar todos os passos de Giselle, torcendo é claro para que nada acontecesse à Larissa, nós que somos as reservas, não estamos prontas para protagonizar, caso contrário, estaríamos protagonizando.
            Soava, girava, soava, girava... Estava cansada acompanhando os passos de Larissa, ela fazia com tanta leveza e suavidade, eu precisava ser um pouco mais leve, assim conseguiria realizar o pás-de-deux.
            - Vamos garotas, precisam parecer bailarinas. – A professora dizia.
            Ela estava tentando nos animar ou nos colocar para baixo? Dizendo que precisávamos parecer bailarinas, eu me considerava uma bailarina, se ela não considerava então o que eu estava fazendo lá?
            - Sou uma bailarina. – Respondi baixo.
            - O que disse?
            - Sou uma bailarina. – Repeti em voz alta.
            - Com o tempo, minha cara Júlia, você irá descobrir a diferença de ser uma bailarina e ser uma boa aluna, veja só, Larissa já é quase uma bailarina, talvez um dia chegue a sua hora.
            Larissa não parava, estava soando, parecia estar até doente olhando de perto, mas quem a olhava de longe via apenas a perfeição, o sorriso, a felicidade, muitas pessoas não vêem o que acontece por trás das cortinas, e por isso consideram essa uma profissão fácil, infelizmente não é bem assim. Diante de meus olhos Larissa caiu. Eu tive uma visão meio retorcida de tudo, também estava girando algumas piruetas, e minha visão foi fracionada, primeiro ela estava caindo, depois na metade do caminho começava a torcer o pé, e por fim seu corpo encostou-se no chão.
            - AH! – Ela gritou com sua expressão única de tristeza.
            Agora tudo poderia mudar, eu parei de treinar e corri para tentar ajudá-la, a professora ficou apenas reparando com aquele olhar de superioridade, cruel, eu deveria ter gritado com ela porém eu não faria isso, precisava dela. Mas e agora? O que poderia acontecer? Eu fiquei assustada, não queria ter a responsabilidade de ser uma reserva ativa, de roubar o papel principal de uma bailarina com muita mais qualidade do que eu. Fiquei com isso em minha mente enquanto ajudava Larissa tirar as sapatilhas, o que será que a professora decidiria a partir de agora? Ela tinha a decisão que poderia mudar a minha vida por completa em suas mãos e ainda ficava apenas observando-nos com aquele olhar de nojo [...]


8 Comentários

  1. Parece ser interessante o livro, ainda mais na visão de um homem, na narrativa em primeira pessoa do sexo feminino.
    Gosto muito de histórias assim!
    Seja bem vindo ao Acordei, Augusto!

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  2. Parece legal, mas admito que só passei o olho naum li tudo pq detesto ler um capítulo, gostar, e naum ter o resto...

    http://conversandocomdragoes.blogspot.com/

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  3. Uauuuuuuuuuu, cara amei, me manda o segundo capitulo kkkkkk Nada folgada eu né? Augusto amei mesmo, estou curiosa.

    bjkss

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  4. Ah! Obrigado Adriana... É a primeira vez que estou escrevendo em 1ª pessoa em uma personagem feminina. Confesso que pra mim não é tão fácil, mas acho que ficará melhor a cada capítulo.
    -

    Kate, você terá o resto, todas as quintas ! ^^
    -

    Ah! Ká, eu mando sim! rsrs.
    Você pode ter acesso antes o/ rsrs

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  5. gostei muito dessa história,é bem interessante,apesar de ter lido apenas o primeiro capítulo,quero só ver o que acontecerá com a Larissa. Estou muito ancioso Augusto.

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  6. Parabéns Augusto! Li e gostei. estarei acompanhando a cada capitulo. Muito sucesso garoto.

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  7. Não vejo a hora de ler o próximo capítulo.

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