Na coluna Livro inesquecível de hoje:

Enderson Rafael - Livro: Bilhões e Bilhões
Carl Sagan



Sinopse

Este é o último livro de Carl Sagan -- foi publicado postumamente pela escritora Ann Druyan, sua mulher e colaboradora e traz dezenove artigos. Os temas são variados: o direito de decisão da mulher em relação ao aborto, por exemplo, o papel da ciência e da tecnologia na discussão dos problemas ambientais, a possibilidade de haver vida em Marte, o aquecimento global. Sagan fala também sobre sua impressionante luta contra a doença que acabou por vencê-lo. Vida e morte são, enfim, o tema desses artigos, um pensador que acreditava na capacidade do homem de tornar o mundo melhor e que tinha, portanto, um profundo comprometimento com a felicidade.



Em 2007, li o livro de Carl Sagan que mais gostei. Já faziam aí 11 anos de sua morte e do primeiro livro que ganhei dele, "Pálido Ponto Azul", presente que meu pai me deu de Natal em 1996. Faltavam então dois anos e meio para que meu pai se fosse com a mesma doença,
mas claro que eu não sabia ainda. "Bilhões e Bilhões" é um livro de não-ficção, o último de Carl Sagan (alguns anos atrás foi lançado "Variedades da Experiência Científica", sempre pela Editora Cia das Letras, um compilação de palestras dele na Escócia, em 1984). Atualmente disponível na versão pocket, "Bilhões e Bilhões" é uma aula de muitas coisas, com toda aquela serenidade espetacular, e aquela facilidade para ensinar Ciência que ninguém jamais conseguiu alcançar. Carl Sagan antevê, em meados dos anos 90, toda nossa preocupação atual com o clima, fala de aborto, as grandes questões científicas que precisam ser elucidadas, o futuro da humanidade, explica soberbamente como a luz funciona - e uma pá de outras teorias complicadas mas maravilhosas - e muitas outras coisas. Mas de tudo, o ponto forte do livro é quando ele fala da descoberta de seu câncer e de sua luta para continuar vivo. Impossível não chorar, e não aprender com um dos maiores astrônomos do século XX. Não há nenhum livro que eu recomenda mais do que esse. Amo romances, literatura nacional, mas este livro estrangeiro de não-ficção é uma jóia formadora de caráter que deveria ser obrigatória a todos os jovens. Mas já que não posso obrigar, termo do qual nem gosto muito, recomendo veementemente. Abaixo, uma foto e um texto sobre este livro, escrito no calor do momento, poucos meses após o acidente que revelou a fragilidade do sistema de tráfego aéreo brasileiro e ceifou 154 vidas, dentre elas a de alguns amigos, sobre os céus da Amazônia, um post no meu Fotolog de então, dia 18 de abril de 2007. O trecho transcrito do livro, fala da morte na visão de alguém que está com os dias contados. 

18/04/07
Legenda da foto: São Paulo, tal qual vista dos limites da estratosfera, por um avião voando sorrateiramente a 39 mil pés de altitude (11.900m) sobre o litoral paulista entre o Rio e Curitiba. Algumas horas atrás, Boeing 737-800WL GIB, G3 1812, GIG-CWB.

Hoje viemos de Manaus, depois Brasília, Rio, Curitiba e por fim aqui estamos, Porto Alegre. Amanhã, saímos na hora do almoço para Congonhas, mas só chegamos definitivamente quase às dez da noite, após um bate-volta Confins. 

Estou lendo já o epílogo do livro Bilhões e Bilhões, de Carl Sagan, cujo final é escrito por sua esposa, Ann Druyan. O amor deles é algo que busco. A mente do professor Sagan é algo que sonho em um dia chegar só perto. Encarar a morte sendo ateu, não é fácil. Para quem não sabe, Carl sagan morreu de um tipo de câncer na medula, em dezembro de 1996. Pouco antes, escreveu o final do seu livro, os agradecimentos não conseguiu concluir. Sinto-me na obrigação de transcrever uns trechos das impressões dele para vocês.

"Já encarei a morte seis vezes. E seis vezes a morte desviou seu olhar e me deixou passar. É claro que ela vai acabar me levando - como faz com todos nós. É só uma questão de quando. E como.
Aprendi muito com essas confrontações - especialmente sobre a beleza e a doce pungência da vida, sobre a preciosidade dos amigos e da família e sobre o poder transformador do amor. Na verdade, quase morrer é uma experiência tão positiva e construtora de caráter, que a recomendaria a todos - não fosse, é claro, o elemento irredutível e essencial do risco. Gostaria de acreditar que, ao morrer, vou viver novamente, que a parte de mim que pensa, sente e recorda vai continuar. Mas, por mais que deseje acreditar nisso, e apesar das antigas tradições culturais difundidas em todo o mundo que afirmam haver vida após a morte, não sei de nada que me sugira que essa afirmação não passa de wishful thinking. Quero envelhecer junto com minha esposa, Annie, a quem amo muito. Quero ver meus filhos mais moços crescerem e quero participar do desenvolvimento de seu caráter e intelecto. Quero conhecer os netos ainda não concebidos. Há problemas científicos cujas soluções desejo testemunhar (...) e como vão se desenvolver tendências importante da história humana, tanto promissoras como preocupantes(...).
Se houvesse vida após a morte, eu poderia, não importa quando morresse, satisfazer a maioria dessas profundas curiosidades e desejos. Mas, se a morte nada mais é do que um interminável sono sem sonhos, essa é uma esperança perdida. Talvez essa perspectiva tenha me dado uma pequena motivação extra para continuar vivo.
O mundo é tão refinado, com tanto amor e profundidade moral, que não há razão para nos enganarmos com histórias bonitas, para as quais não há muitas evidências. A meu ver, em nossa vulnerabilidade é muito melhor encarar a morte de frente e agradecer todos os dias pela oportunidade breve, mas magnífica que a vida nos concede(...).
Muitos me perguntaram como é possível enfrentar a morte sem a certeza de uma vida posterior. Só posso dizer que isso não tem sido um problema. Com ressalvas quanto às 'almas fracas', partilho a visão de um dos meu heróis, Albert Einstein:

'Não consigo conceber um deus que recompense e puna as suas criaturas, nem que tenha uma vontade do tipo que experimentamos em nós mesmos. Não consigo, nem quero conceber um indivíduo que sobreviva à sua morte física; que as almas fracas, por medo ou egoísmo absurdo, alimentem esses pensamentos. Eu me satisfaço com o mistério da eternidade da vida e com um vislumbre da maravilhosa estrutura do mundo real, junto com o esforço diligente de compreender uma parte, por menor que seja, da Razão que se manifesta na natureza.'"
Já me saltaram lágrimas nos olhos diversas vezes durante as páginas finais do livro, e quando evoco os anjos que estavam no vôo que hoje terminamos sem sobressaltos, mas que no último dia 29 de setembro terminou apenas uma hora e poucos minutos depois de decolar de Manaus, honro a memória de meus colegas e amigos, não suas almas, nas quais não acredito. É estranho estar aqui no hotel em Porto Alegre, onde eles teriam chegado. Mais estranho ainda é sair do Tropical, em Manaus, último lugar onde eles estiveram hospedados. É um privilégio que mais esse dia nos tenha sido concedido. Aproveitemo-lo, pois, pelos que ficaram pelo caminho. Que quando acabe, nossa vida, como a deles, não tenha sido vã.

Enderson Rafael


Nota: se você tem um livro inesquecível e quer participar desta coluna é simples: tire 
uma foto sua com o livro, envie a sinopse e nos conte porque esse livro é 
inesquecível para você.

Envie para contatoadrianabrazil@yahoo.com.br ou kguimaraesramos@gmail.com

2 Comentários

  1. Bem, parabéns pelo seu livro :)
    Esse ai não é o meu tipo de leitura ;)

    Bjus.

    ResponderExcluir
  2. Não sou fanático com religião, mas descobri que existem mais indicativas de existência da vida após a morte que o contrário.
    Passei a ler algumas coisas, e, gradualmente a coisa foi se confirmando, até se tornar uma convicção.
    E isto é extremamente confortador.
    Então me perguntei: por que o mesmo não acontece com outras pessoas? afinal, elas teriam muito a ganhar.
    Ainda não encontrei resposta para esta pergunta.

    Mas é bom ressaltar que sou, ainda que bem de longe quando comparado a C. Sagan, um homem de ciência, e não me deixo levar por crendices e superstições. Minha convicção ocorreu porque andei perguntando e pesquisando.
    Nada vem de graça, neste mundo.
    abraços
    Arthur

    ResponderExcluir

Comentários ofensivos e/ou preconceituosos não serão aceitos.

Obrigado por visitar e comentar.