Como sempre impaciente Alice ficou estressada quando começou a suspeitar da falta de algumas garotas que seriam importantes para o corpo de baile, mas no fim todas elas chegaram, e ela não pode gritar com ninguém, isso queria dizer que o dia dela já estava estragado, a felicidade de cutucar os outros ela não teve pela manhã.
            No ensaio geral tudo estava indo perfeitamente, nenhum erro notável, as garotas estavam indo muito bem, primeiro Alice estava ensaiando as garotas menores, depois entraria em nossa parte, pois elas ainda estavam com algumas dúvidas, apesar de não estarem errando neste dia, nos últimos estavam cometendo muitas falhas, e era melhor evitar que algo saísse errado.
            - Vamos Diana, mais leveza nestes braços, estão duros. – Alice corrigia Diana, que tentava fazer o melhor possível.
            Quando a professora disse que começaríamos ensaiar o pás-de-deux eu me senti um pouco ansiosa, estava esperando a minha vez, agora todas as garotas iriam me olhar e ver o que eu estava fazendo, desde as garotas do 1º ano, que me veriam como exemplo, até minhas “rivais” do 6º, 7º e 8º ano. Tudo bem, eu dizia que não me importava com a opinião alheia, mas dizer isso é ridículo, todos nós nos importamos com a opinião alheia, ou então no calor, não vestiríamos nada.
            A música lenta começou a tocar, as garotas que tinham de ficar em fila nas laterais do palco já estavam alinhadas e então eu comecei a interpretar Giselle. Sempre ouvi comentários de que a melhor bailarina é aquela que incorpora a personagem por completa, eu sinceramente não conseguia fazer isso, porém eu me esforçava bastante, e conseguia fingir. Nossa, pensando que este papel já havia sido dançado por tantas bailarinas famosas, e este pás-de-deux em especial havia sido feito por Mikhail Baryshnikov e Natália Makharova, eu ficava inspirada, sentia-me uma rainha dançando, fazia jus a expressão de alcançar os céus.
            Ao terminar o ensaio eu estava exausta, o dia já estava se transformando em noite, havíamos passado a tarde inteira no local, eu precisava ir para casa logo, tentar relaxar, o grande dia seria amanhã, e isso era uma coisa muito especial.
            Quando cheguei em casa, não observei muito as coisas, não percebi que a casa estava silenciosa, não percebi que não havia ninguém nela, então eu fui direto para o meu banho, tirei a minha roupa e deixei a água quente levar o meu suor ralo abaixo. Mesmo no banho, eu estava imaginando a música e fazendo movimentos com os braços, tentando alcançar mais leveza, mais suavidade, tentando imaginar a minha última apresentação, para todos os pais verem que eu era uma das melhores daquele local, e suas filhas estavam apenas me acompanhando, com exceção de Larissa é claro, logicamente se ela não tivesse se lesionado, eu nunca teria a oportunidade de protagonizar a peça.
            A vida ensina que as coisas são assim, devemos aproveitar as nossas oportunidades, muitas vezes estas chamadas de “sorte”, pois é, devemos aproveitar as “sortes” que acontecem uma vez ou outra em nossas vidas, mesmo que elas sejam os fracassos, machucados e problemas das outras pessoas, e isso não é questão de individualismo ou egoísmo, é simplesmente a natureza humana, temos que cuidar de nós primeiro, para depois cuidar dos outros.
            Fechei o chuveiro e peguei minha toalha rosa, nela havia o meu nome escrito, minha mãe havia feito antes de falecer, nunca abandonaria essa toalha. Depois, enxuguei meu corpo na sala, foi aí que percebi o silêncio e solidão de minha casa. Mas ainda não dei importância alguma, apenas achei que meu pai havia ido a algum lugar com Elisa, então coloquei meu pijama preferido, ele também era rosa, mas em vez de ursinhos ou flores desenhados ele continha bailarinas por todos os lados realizando maravilhosos arabesques. Pode parecer uma coisa inútil, mas dormir com o balé na cabeça, no pensamento dentro de você, te dá mais segurança para o dia seguinte, o dia da apresentação.
            Bocejei, meu olhos se comprimiram e aquelas argolinhas azuis e vermelhas começaram a aparecer na imagem preta que via quando estava de olhos fechados. Virei para o lado, encolhi as pernas e cobri-me com minha coberta de seda, como eu adorava, no frio esquentava e no calor esfriava.
            Minha noite estava sendo ótima, e estava tendo um ótimo sonho de como eu completava minha apresentação com perfeição e todos aplaudiam de pé por mais de cinco minutos, e a glória sendo completamente minha. Larissa apenas assistindo do alto, lesionada, mas também aplaudindo, admitindo-me como sua sucessora. Mas eu acordei antes que aquele sonho prazeroso pudesse acabar, escutei o telefone tocar.
            - Claro! – Eu disse com uma voz sonolenta. – O despertador, droga de apresentação, porque precisamos chegar a tarde se vamos dançar a noite?
            Depois de falar sozinha por um tempo pulei da cama o mais rápido que pude e comecei a ajeitar as minhas coisas no quarto, coloquei as roupas dentro da bolsa, peguei minha sapatilha, taquei ela em um bolso separado dentro de uma sacola, peguei uma cinta, algodão, esparadrapo, álcool, meias, faixas, gel, batom, lápis, sombra e tudo que eu precisaria. Quando abri a janela para ver como estava o dia, tive uma grande decepção, ainda não era dia, o céu estava negro, lá estavam às estrelas e a lua brilhando mais forte do que nunca.
            - Não acredito! – Eu disse a mim mesma indignada. – Isso é uma grande merda, merda, merda!
            Realmente, quando olhei para o relógio ainda eram 03:45, o telefone continuava a tocar, e agora que eu sabia que não era o despertador não queria atender. Foi por mais um tempo deitada em minha cama e aquele telefone voltando a tocar, percebi que meu pai não estava descendo as escadas ou reclamando, muito menos minha irmã, então fui ao quarto de meu pai e abri a porta, ele estava vazio, e o mesmo aconteceu quando fui ao quarto de Elisa. Agora eu estava ficando preocupada, eles não chegaram desde o momento que eu cheguei do ensaio no dia anterior.
            Então esperei o telefone tocar novamente, e quando isso aconteceu atendi no mesmo momento, estava chiando de mais, o sinal estava péssimo, mas consegui entender que aquela voz era de meu pai, ele estava chateado com alguma coisa, e eu não havia ouvido a voz de Elisa, então decidi ligar de casa para o celular dele, assim talvez a transmissão ficasse melhor, e foi o que aconteceu.
            - Alô, pai, onde você está? – Perguntei preocupada.
            - Estou no hospital, com sua irmã. – Ele respondeu com sua voz suave e um tanto decepcionada. – Você sabe que sua irmã, quando nasceu precocemente e com todos aqueles problemas de saúde...
            Meu pai começou a chorar de repente, e não conseguiu terminar o que estava querendo dizer, eu junto a ele lacrimejei os olhos, eu sabia do que se tratava. Elisa desde pequena apresentou problemas sérios de saúde, sempre precisou de acompanhamento médico, mas até onde eu sabia nada estava acontecendo no momento, ela sempre teve problema com os glóbulos sanguíneos, e certa vez um de seus médicos disse que ela poderia estar correndo grande risco de vida, devo dizer que nunca compreendi a doença dela, mas eu sabia que era algo grave. Não era algo que tirasse ela do cotidiano comum, pois era uma doença cardíaca, e isso era o que mais me preocupava, e o que mais me preocupou neste momento.
            Tive que me trocar novamente, coloquei uma roupa simples de sair, o hospital não era muito longe de minha casa, mas quando eu ia, geralmente ia de ônibus, agora teria que ir a pé e ainda com a grande preocupação de algo mais grave acontecer com minha querida irmã nesse pequeno intervalo de tempo.
            Passei pelas ruas praticamente correndo, meu corpo estava suando, estava ficando desesperada e não estava entendendo direito os fatos, as lágrimas começavam a escorrer de meu rosto, jurei a mim mesma que se algo acontecesse com minha irmã, eu desistiria de todos os meus planos, esse foi um pensamento de uma garota que se via muito insegura no momento, mas eu estava realmente muito triste.
            Chegando ao hospital procurei meu pai, um dos seguranças, vendo-me no estado que eu estava, ficou preocupado e me ofereceu um copo d’água, mas eu não pude aceitar, precisava achá-los em algum lugar, li as placas e segui em diante, porque os hospitais tem que ser iguais labirintos? Não são shoppings, deveriam ter o acesso e saída facilitados e não complicados.
            Enfim achei meu pai, lá estava ele sentado em um banco com uma expressão silenciosa, que não queria dizer absolutamente nada. Me aproximei dele e dei-lhe um abraço.
            - Minha filha... – Ele sussurrou. – Sua irmã vai ficar bem, eu lhe garanto.
            - Eu sei que ela vai pai, ela sempre ficou, mas e se... Não sei... sabe e-eu...
            Eu estava confusa, já havia passado por situações similares aquela, mas sabia que quanto mais passava o tempo Elisa ficaria pior, e isso era uma questão de tempo natural, os tratamentos ajudavam bastante, mas há coisas que os médicos não podem resolver, a ciência parecia tão evoluída, mas olhando pelos casos mais sérios na verdade percebia-se que ela era, e ainda é tão fraca e pobre, de qualquer jeito a única coisa que eu e meu pai poderíamos fazer era esperar.
            - Filha, você precisa dormir, amanhã você tem uma bela apresentação para protagonizar, por favor, vá.
            - Danço para mim e para a platéia pai! – Retruquei em voz alta. – Se minha irmã não estiver presente nela, significa que eu não estou dançando para ninguém, apenas para um bando de estranhos e pais de outras garotas que estão pagando para me assistir!
            Meu pai ficou complexado com o que eu disse, e com o tom que eu disse, soou como uma grande bronca, ele não respondeu e também não insistiu que eu fosse embora. Depois de um tempo, deitei com minhas pernas nos outros bancos e minha cabeça em suas pernas, ele começou acariciar os meus cabelos, enquanto esperávamos a próxima notícia do médico, eu estava com medo, queria apenas que tudo desse certo. [...]  
            

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