Um zumbido perturbador estava vindo ao meu ouvido enquanto eu estava deitada nas pernas de meu pai, achei que estava com dor de cabeça ou algum problema do tipo, mas quando abri os olhos era um adolescente de no máximo 16 anos ouvindo uma música insuportável no celular, dentro da sala de espera do hospital às cinco horas da madrugada. Meu pai estava acordado, eu me sentei nos bancos do hospital novamente, e fiquei observando como aquele garoto era idiota.
            Levantei-me e fui em direção ao bebedouro que ficava praticamente do outro lado do corredor, quando cheguei lá, encontrei um segurança, bebi minha água e depois me direcionei a ele.
            - Você pode me levar até a sala de espera? – Perguntei ao segurança.
            - Claro, venha comigo.
            O segurança me levou até a sala de espera novamente, e foi quando ele percebeu que o garoto estava ouvindo a música no celular, e pediu para ele desligar. Enfim, consegui silêncio, voltei a deitar nas pernas de meu pai e tentar cochilar um pouco, ainda estava levando em consideração a história de dançar na manhã seguinte.
            Após mais algumas horas, quando o sol já refletia dentre as cortinas e as janelas enormes da sala, um médico chegou perto de nós para falar algo, e eu rezei com todas as minhas forças para que não fosse nada de ruim.
            - Ela ficará bem. – Disse o doutor. – Mas por enquanto, ela terá que ficar sob observação no hospital, por mais ou menos uma semana.
            - Posso vê-la? – Meu pai perguntou ao doutor.
            - Claro, agora pode.
            Meu pai foi em direção ao quarto, eu fiquei sentada até ele me chamar fazendo um movimento com sua mão, eu fui até lá e entramos juntos. Elisa estava deitada naquela coma de hospital, eu odiava vê-la naquele estado, felizmente ela estava acordada, sentei-me e segurei suas belas e pequeninas mãos.
            - Você é tão diferente. – Eu passei a mão sobre seus cabelos . – Vou ficar aqui com você até melhorar.
            - Está louca? – Elisa retrucou rindo, e sentindo um pouco de dor. – Meu lugar é no hospital, o seu lugar é no palco, você sempre quis protagonizar, agora é sua chance, se ficar aqui, eu te mato quando melhorar. – Ela terminou de falar com um sorriso.
            Rimos juntas, mas logo a expressão de felicidade saiu de nossos rostos, estar na situação dela não era fácil para uma adolescente desta idade, era justamente a idade de mais diversões, confusões, brigas, desobediência, irresponsabilidade.... E como isso é bom, ser irresponsável, apenas significa que na sua cabeça, você não tem responsabilidades, e é nessa época que você é mais feliz, quando não tem consciência de como é o mundo, e de como temos que arcar com as conseqüências se não nos encaixarmos perfeitamente no sistema.
            Segui o conselho de minha irmã, acima de tudo ela estava certa, eu estava muito preocupada com ela, mas meu lugar era no palco, e eu precisava ir dormir antes que não agüentasse mais e não conseguisse acordar cedo. Iria chegar atrasada, é claro, mas o importante era o espetáculo, e era melhor eu chegar apenas um pouco antes da apresentação do que chegar seis horas antes, assim eu estaria mentalmente preparada para chegar, aquecer e dançar.
            Cheguei a minha casa e logo fui dormir, nem imaginei em colocar o pijama ao arrumar as coisas em cima da cama, apenas me joguei estirada sobre ela e fechei os olhos, peguei no sono antes que pudesse pensar em imaginar as coisas.
            Agora sim, abri a janela e o sol das 17hrs veio ao meu olho com força, os fechei rapidamente, mas como sempre a mancha amarela ficava na escuridão, e então não adiantava muita coisa. Com os olhos ardendo desci as escadas com minhas roupas e tudo que era necessário que já havia organizado antes, minha mochila já estava pronta, então fui direto para o banho.
            Após sair do banho, enxuguei-me, como sempre na sala, coloquei minha calcinha, sutiã, minha meia-calça, meu collant e a calça jeans por cima, junto de minha blusinha branca, e por cima coloquei minha blusa jeans vermelho vinho, da mesma cor de minha calça, uma simples combinação interessante com o branco que havia aprendido com Elisa.   
            Sai de minha casa, fui até o ponto de táxi e chamei um, eu não poderia gastar o dinheiro que havia sobrado o mês passado de minha nova sapatilha, mas por outro lado estava cheia de coisas, e essa hora o ônibus estava um tanto lotado, não como de manhã é claro, mas estava, e eu queria relaxar, ouvindo a minha música clássica de Johan Sebastian Bach e ver as coisas passarem rápido, era assim que eu gostava de fazer o meu caminho.
            As coisas passavam, passavam e a música soava em meus ouvidos como qualquer músico sente a perfeita melodia entre os instrumentos, meu corpo começava a entrar no ritmo pelo pensamento, mesmo que eu estivesse ali sentada, parada, não importava.
            - Não está com calor? – O motorista do táxi perguntou olhando-me com aquela blusa jeans quando o clima estava quente.
            - Estou bem, obrigada! – Eu respondi educadamente.
            A questão não era o calor ou o frio, eu estava apenas querendo me concentrar, e eu conseguia me concentrar melhor, em pensar melhor no interior, eu suava e era exatamente esse o ponto, a transpiração na ciência é uma coisa, porém é uma reação que você sente de seu lado interno para o externo, era exatamente o que eu teria que fazer para tentar ser perfeita.
            Cheguei ao teatro, vendo de fora ele não parecia tão grande, mas por dentro realmente era. Um dos seguranças me perguntou:
            - Quem é você?
            - Dançarei hoje, preciso entrar rápido.
            - As garotas entraram há horas! –O segurança insistiu.
            -Eu sei, eu sou a protagonista. – Respondi com superioridade. – Preciso realmente entrar rápido, poderia me dar licença?
            Quando ele ouviu a palavra “protagonista” sentiu alguma segurança, e me deixou entrar no mesmo momento, estava vendo agora o que Larissa havia vivido no ano passado, aquilo se chamava importância, e essa importância apesar de muitos não quererem admitir é prazerosa, isso te faz executar a sua função melhor do que você executaria.
            Cheguei ao corredor dos camarins, entrei no primeiro que encontrei, eu não tinha um exclusivo assim como Larissa sempre teve, mas não importa. Tirei minha roupa de cima,a guardei dentro de minha mochila, tirei minha bolsa de maquiagem e comecei a me maquiar, levei um susto quando a porta se abriu com força, era Layla, a única amiga que restara a mim na Escola Municipal de Bailado, e ela estava com os nervos a flor da pele.
            - Irresponsável! Irresponsável! – Ela gritou o mais alto que pôde. – Onde você estava por todo esse tempo, andei te procurando, te ligando, não poderia entrar em contato dizendo que talvez não viesse?
            - Eu não pude vir mais cedo. – Respondi tranquilamente enquanto continuava a fazer minha maquiagem.
            Layla tirou a maquiagem de minha mão e começou a fazê-la, bem, isso eu tinha que admitir, ela fazia bem melhor do que eu, mas a verdade é que ela estava estressada, pois se eu não viesse, ela teria que fazer Giselle, porém ela é claro, não havia dado tanta importância a essa possibilidade, significa que sairia horrível e ela passaria vergonha em público.
            - Porque não pôde vir mais cedo? – Ela perguntou um pouco mais tranqüila.
            - Minha irmã passou mal, você sabe que ela tem estes problemas, teve que ser levada ao hospital, ela poderia ter morrido se não fosse logo.
            Tive a sensação que Layla havia ficado muito mal por ter gritado comigo antes de saber do que se tratava o meu atraso, mas além de tudo, quando ela terminou de me maquiar, eu peguei a roupa de Giselle no cabide central, coloquei sobre o meu collant, amarrei minha sapatilha com um laço clássico, me direcionei a ala de concentração, onde todas as garotas estavam reunidas, e foi quando Alice me viu, ela ficou mais nervosa do que Layla estava comigo, veio em minha direção como se fosse me bater, segurou em meu braço e levou-me para o corredor ao lado.
            - Onde você estava?
            - Tive que ficar em casa, minha irmã passou mal.
            - Não me interessa, você deveria estar aqui muito antes!
            Layla chegou ao meu lado encarando Alice, e disse:
            - Faltam mais de meia hora para começar a apresentação, não a desconcentre, são sete e meia, entramos as oito, não vejo problemas de Júlia ter chegado essa hora.
            Alice queria me matar de uma forma ou de outra, mas teve que se colocar na situação de errada, pois realmente, eu estava lá antes da apresentação e iria dançar perfeitamente, ela não poderia me criticar de forma alguma. Voltamos para a concentração atrás das cortinas, ficamos apenas pensando em como seria tudo, seria maravilhosa, eu estava ansiosa, e pronta para fazer o público sentir minha personagem, eu estava feliz, enfim, chegara o momento de brilhar. [...]

4 Comentários

  1. Caro Amigo/Amig@,

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    É com base neste espírito que Lisboa acaba de ganhar um novo Alfarrábio on-line. É o www.livrilusao.com, que vende livros usados e novos.

    No entanto, não queremos ser apenas um alfarrábio a mais. Para além de comprarmos, vendermos e trocarmos livros, buscamos também interagir com todos que queiram trocar ideias connosco sobre livros, artes em geral e tudo o mais relacionado com Cultura.

    Convidamos-te a visitar a nossa página e, se achar interssante, ajudar a divulgá-la, repassando esta mensagem para a sua lista de emails.

    Vamos dar continuidade à aventura dos livros!

    Obrigada,


    Giulia Pizzignacco,
    Livrilusão

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  2. Neste mês, em comemoração à PÁSCOA, nas compras de livros com valor igual ou superior a 5€ o Alfarrábio Livrilusão oferece como prenda um tablete de CHOCOLATE para adoçar a sua leitura.

    Acesse: www.livrilusao.com

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  3. Guilherme Viniciusdomingo, abril 17, 2011

    Nossa Augusto esta indo muito bem,meus parabens.

    E continua.rsrs

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