Sorte! Eu não precisava de sorte, mas ela não poderia me faltar, todas as garotas já haviam saído de trás da cortina, menos as outras do 5º ano que ficariam atrás de mim antes da grande abertura. A pressão sumiu totalmente de minha mente, agora eu só ouvia a música de abertura tocada antes do primeiro ato, mas minha irmã ainda não havia fugido completamente da minha cabeça, ainda estava preocupada com ela, mais com ela do que comigo neste momento.
            Então todos nós fomos para o lado do palco, e Lucas já estava pronto, o personagem dele Hilarion, é o primeiro a pisar no palco, após a música recomeçar com realmente o primeiro ato, ele entrou. Ele observava as coisas, olhava bem, para todos os lados, e depois voltava. Logo após Lucas deixar o palco pela primeira vez, as garotas do 5º ano entraram, havia 5 ou 7 delas, é quando Leonardo entra me procurando com Tiago, que estava fazendo seu criado Wilfrid, tentando convencê-lo à desistir, mas logo Leonardo como Albrecht manda seu criado deixá-lo. O criado obedece rapidamente, é quando Tiago deixa a cena e Leonardo fica sozinho. Então ele bateu na porta onde eu estava, é quando ele se esconde, eu abria a porta e então saia para a minha primeira dança consistente. Eu entrei sem medo, comecei
a interpretar a garota com toda a minha inspiração, então eu procurei por quem bateu na porta, e enfim depois de algum tempo dançando, Leonardo voltou para a cena, é quando Giselle encontra Albrecht pela primeira vez na peça.
            Fomos realmente bons, foi maravilhoso o fim do primeiro ato, e depois passamos para o segundo, e também foi incrível, o grand pás-de-deux foi perfeito, todos aplaudiram de pé por um grande tempo, foi um dos melhores momentos em minha vida dentro da dança.
            O final foi intenso, nunca me senti tão grande, tão alta, tão espetacular como naquele simples momento, tudo fugiu de minha cabeça, não existia mais nada, não existia os problemas, os sonhos, os desejos, apenas aquele segundo. Dancei com Leonardo a última parte, e depois eu entro e saio de cena, é quando Leonardo se afastou, ele foi afastando-se cada vez mais, até que no momento final ele deitou-se, e as cortinas se fecharam.
            Os fleches e aplausos foram imensos, estávamos escutando tudo de trás das cortinas. Organizando-nos para o agradecimento conversávamos.
            - Você foi perfeita! – Layla disse dando-me um beijo!
            - Eu disse que você conseguiria! – Leonardo disse dando-me um abraço forte, e quase chorando de emoção e alegria. – Você foi a melhor bailarina que já dancei, estou muito feliz por você, é nosso último ano, você tem um grande futuro.
            - Digo o mesmo! – Respondi a ele enquanto o abraçava.
            Alice organizou as filas, a hierarquia era simples, primeiro entravam as mais novas e depois iam entrando as mais velhas e as principais. As cortinas se abriram e todos seguiram o plano de agradecimento. As pessoas aplaudiam como loucas, tiravam fotos, eu estava olhando e não conseguia ver muita coisa, apenas centenas de mãos se movendo e as luzes das câmeras quase me cegando-me, um efeito muito similar a quando os raios solares tocavam os meus olhos, por fim entrei junto a Leonardo, Lucas, Layla, Thaísa e Viviane. Após o nosso agradecimento todo o corpo de baile foi para frente, e as cortinas fecharam-se pela última vez.
            Esbarrando em muita gente, eu e minha amiga Layla começamos a nos retirar das multidões e enfim fomos para o vestuário nos trocar. Tirei meu collant, eu estava muito suada, enxuguei meu corpo e coloquei uma roupa leve que havia trazido para ir embora, minha calça tactel e uma camiseta rosa bem simples e de tecido brim, coloquei o collant de qualquer jeito dentro da bolsa e me direcionei ao corredor, foi quando encontrei Layla novamente.
            - Estou indo para casa. – Ela me disse sorrindo.
            - Vejo você! – Retruquei.
            - Ah! Vamos tentar nos ver sim! Até mais amiga.
            Já era tarde, tinha que aproveitar enquanto os ônibus não estavam completamente lotados para voltar ao meu lugar, consegui pegar um logo quando cheguei ao ponto, e então encostei minha cabeça na janela fechando os meus olhos.
            Cheguei ao ponto de casa muito cansada, apesar de ter dormido no ônibus, estava com mais sono ainda, tirei a chave e abri o portão, a porta estava aberta e a luz acesa, bom sinal, eu pensei ao entrar. Quando cheguei ao sofá lá estava meu pai sentado, fiquei preocupada com sua expressão.
            - O que foi? – Perguntei sentando-me ao lado dele.
            - Nada filha, pode ficar tranqüila, sua irmã está bem, está dormindo no quarto dela, o médico disse que ela poderia voltar para casa antes se ficasse nos conformes do repouso.
            - Boa noite!
            Subi as escadas rapidamente, abri a porta do quarto de minha irmã com cuidado, não fiz barulho para não acordá-la, eu sabia que ela estava lá, mas queria vê-la. Depois disso desci novamente e tomei meu banho, quando o terminei, tornei a subir as escadas, coloquei meu pijama e fui até a cama de minha irmã, deite ao lado de Elisa, acariciando seu belo cabelo.
            Quando acordei no dia seguinte, minha irmã já havia acordado, ela estava deitada na cama tomando seu café, meu pai havia feito para ela, pois Elisa não poderia sair da cama por pelo menos cinco dias, ou então os sintomas cardíacos poderiam voltar. Mesmo ela estando consideravelmente bem, reparei na expressão de dor, e isso era o que eu mais odiava: Vê-la desse jeito.
            - Você está bem, Elisa?
            - Não muito. –Ela respondeu. –Mas sinto que vou melhorar.
            - Ótimo.
            Levantei-me, era domingo, e a próxima seria a última semana de aula, que maravilha, eu comemoraria as férias do balé, mas agora não era só isso, era definitivo, eu acabei de me formar, agora eu precisava marcar um exame no sindicato de dança para retirar meu DRT, era tudo o que eu almejava neste momento. Mas antes disso eu precisava ir até uma banca de exames para provar que eu era capacitada a fazer isso, realmente, isso é uma grande complicação. Não! Provar que eu era capacitada era fácil, o problema é toda essa burocracia existente.
            Alguns dias depois, meu exame para o certificado de capacitação de dança estava marcado, agora era simplesmente escolher uma passagem, e fazer alguma coisa livre, não era tão difícil quanto parecia, não para mim pelo menos. Pensei em mudar alguma coisa, tudo bem, não queria dançar Giselle no exame, pensei bastante antes de escolher, mas enfim, decidi que faria a morte do cisne, eu já havia feito isso antes, algumas vezes sozinha, mesmo assim comecei a treinar para parecer melhor ainda.
            Mais alguns dias se passaram, eu estava de férias e minha irmã já voltara a seu estado normal novamente, fiquei muito feliz por isso, melhorou a minha inspiração, o que acontecia com ela poderia refletir diretamente em minha dança. Realmente, não era muito profissional pensar desse modo, mas como eu ainda não era profissional, não precisava me preocupar com isso, ou eu achava que não precisava.
            Era o dia do exame, eu fiquei um pouco preocupada, sempre ficamos, mesmo quando sabemos que o sucesso já é absoluto, então porque existe essa sensação? Talvez ela faça-nos errar mais do que poderíamos se estivéssemos apenas tranqüilos, na posição de controle. Infelizmente nunca controlei minha mente muito bem, meu psicológico era forte como eu disse, porém meus pensamentos ficavam viajando através de coisas que não tinham nada a ver com o que eu estava exercendo no momento, isso tirava a minha concentração.
            O Lago dos Cisnes é o balé mais almejado pela maioria, ou por todas as garotas que dançam balé, não só porque é o mais famoso, ou o mais bonito, mas também porque é o mais difícil de executar com perfeição, fazê-lo não é o problema, mas parecer perfeito é uma coisa que trava completamente em especial nesta peça.
            Depois de ganhar o meu certificado de capacitação, fui retirar o meu DRT, enfim chegou esse momento, fiquei tão feliz, ser uma profissional da dança sempre foi um de meus objetivos, esperei tanto por isso e nesse momento senti que não havia jogado oito anos de minha vida para o alto, apostei com todas as minhas fichas que a partir desse momento minha vida mudaria completamente, e de qualquer forma mudaria, sem escola, isso já seria uma grande mudança, terminei a escola com notas excelentes, tirando assim um ótimo histórico.
            Deste momento para frente, pensaria apenas em meu futuro profissional, procuraria contatos e tentaria crescer no mundo da dança, cheguei a enviar currículos para várias academias de balé, seria excelente começar a dar aulas, reforçar um pouco o que eu já não via faz algum tempo, relembrar algumas coisas, seria emocionante ver as garotas começando agora, exatamente como eu comecei, sem ter nenhuma noção se era aquilo que eu queria, mas com isso, descobri um fato, nós não escolhemos a dança, a dança é que nos escolhe [...]

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