- Acorda Júlia, acorda! – Minha irmã falava como uma matraca. – Acorda logo, por favor, precisamos ir ao shopping.
            Eu apenas abri o olhou e rolei para o outro lado da cama com a coberta, dei um pequeno gemido, de quem sabe que tem de acordar, mas está querendo dormir e tentando fingir que ainda está dormindo.
            - Elisa! Temos que ir tão cedo? – Perguntei ainda com a voz rouca e gemida.
            - É o aniversário do pai! – Elisa disse impressionada. –Claro que temos que ir tão cedo, vai logo sua preguiçosa.
            Ela não estava mentindo, ultimamente eu andava um pouco preguiçosa, não treinei muito balé, mas recebi uma proposta muito boa, uma academia me aceitou como professora e comecei a dar as aulas há quase um mês e meio. E para a minha felicidade, muitas delas aceitaram, quando se trata de Municipal no currículo as coisas são um pouco mais fáceis, e o salário não seria tão ruim, pelo menos se levar pelo lado dos dois salários juntos.
            Nunca dei muita importância para aniversários, somente para o de Elisa, de meu pai eu nem me lembrava exatamente, se não fosse ela para me dizer no dia anterior. Ela queria que eu comprasse algum presente que ele gostasse, eu sinceramente não queria acordar tão cedo para isso, mas já que precisava ser antes dele acordar, me troquei e saímos.
            Pegamos um táxi, agora que eu estava recebendo, não estava perdendo meu tempo em usar ônibus, eu não iria gastar o dinheiro com outra coisa mesmo, não gostava de muitas roupas como minha irmã, nem de ficar saindo para baladas, então eu guardava algum dinheiro no banco e gastava o resto ou com o táxi ou com as bolachas champagne, como eu adorava comer aquilo, todos os dias eu precisava comprar um pacotinho, pena que vinham apenas seis, e isso me dava muito raiva.  
            Quando chegamos ao shopping, não teve outra impressão, Elisa correu diretamente para a loja de roupas sociais da Brooksfield, nem conversamos sobre o que seria um presente interessante, eu não acredito no vício que aquela pequena menina tinha pela moda, os ternos eram caros, mas ela estava olhando, comecei a pensar que ela escolheria um bem caro mesmo, só para acabar com todo o meu dinheiro, como se eu pudesse me dar este luxo.
            Ela se direcionou a uma das cabines, lá estava um terno preto, ela havia se apaixonado por ele, achou que meu pai adoraria receber um presente daquele, já que ele era atendente de hotel, seria bom passar uma boa impressão dentro da cabeça dela, e realmente, achei que ela não estivesse errada. O problema, é que logo abaixo do terno estava escrito: “Brooksfield Pura Lã Virgem, 750 reais”. Suspirei no momento, mas eu não consegui falar não para minha irmã, ela queria muito dar essa felicidade para nosso pai.
            - Tudo bem Elisa. – Coloquei a mão sobre o ombro direito dela. – Se quiser levar este, pode levar, daremos para ele, acho que ele vai gostar.
            - Ele tem que gostar! – Ela respondeu sorrindo. – Ele nunca usou uma roupa de marca interessante, está na hora de abandonar aquele terno cinza sem marca e de loja de esquina.
            - Posso ajudá-las? – Perguntou um dos funcionários.
            - Pode, queremos este terno aqui! – Minha irmã disse apontando. – E queremos um embrulho para presente, um bom embrulho.
            Seguimos o funcionário, que era muito bem vestido também, o que chamou a atenção de Elisa. Depois de efetuarmos a compra, decidimos passar no MacDonalds para comer alguma coisa, levar aquele terno não era muito legal, o plástico ficava raspando em mim enquanto eu andava, e minha irmã não tinha altura, então eu precisava carregá-lo.
            Comemos o típico sanduiche de hambúrguer e queijo, tomamos um belo sorvete, o mais caro que tinha, já que eu estava gastando dinheiro, então pensei em gastar tudo, não vale à pena ficar com pouco depois que se gastou 80% do total.
            Pegamos um táxi novamente, eu já estava cansada. Eram 11hrs da manhã, meu pai com toda a certeza ainda estava dormindo, isso acontecia geralmente todos os domingos, então imagine só no domingo de seu aniversário.
            Quando chegamos a nossa casa, era isso mesmo que estava acontecendo, ela estava exatamente com o havíamos deixado e meu pai ainda não havia descido de seu quarto para nada, nem ao menos para comer alguma coisa, então decidimos deixar o presente para a noite, quando a festinha seria dada com algumas pessoas da nossa família, é realmente engraçado, mas mesmo no aniversário de pessoas mais velhas era tradição reunir quem estivesse por perto para festejar, eu nunca entendi direito, para mim festa de aniversário era coisa de adolescente e criança.
            - Não me importo. – Meu pai dizia ao telefone. – Não sei o porquê insistem em fazer essas porcarias, tenho que perder todo esse tempo de vida útil com isso.
            Depois disso ele desligou o telefone, o motivo era obvio, ele não queria que a família se reunisse para comemorar o aniversário dele, inclusive ele nunca gostou da família, e só fingia estar preocupado com a doença de minha irmã, mas na verdade não estava, se ele realmente estivesse não estaria desperdiçando o tempo dele dormindo, e sim seguindo os procedimentos que o médico mandou tomar, sobre remédios e todas essas coisas que ele ignorava, como se ela tivesse maturidade o suficiente para lembrar-se de todos os horários e seguir uma medicação pelo tempo correto. Sorte dela, ter uma irmã tão aplicada a ela quanto eu, se não provavelmente não iria melhorar nunca.
            O momento da festa chegou, meu pai fingindo agora estar feliz com tudo, pelo menos para as outras pessoas da família ele conseguia fingir. A “festa” foi se passando, e então chegaram os convidados que realmente estávamos esperando, nossos dois primos, eles eram muito legais, nos divertíamos bastante juntos. Vítor era mais velho, tinha 20 anos, moreno, corpo malhado e um pouco mais alto do que eu, Alexandre era um ano mais novo, era mais claro do que seu irmão e um pouco mais baixo, minha irmã tinha uma queda pelos dois, e isso era muito engraçado.
            - E aí linda! – Disse Vítor para minha irmã que sorriu. – Você cresceu!
            - Você acha? – Ela perguntou sorrindo.  
            - Ai, ai! – Interferi com a minha chatice. – Olha só Elisa, vai jogar um pouco de videogame ou brincar de casinha! Estou precisando conversar com nosso primo, tudo bem?
            - Tudo... – Elisa respondeu fechando sua expressão.
            Fui até o quintal com o meu primo, mas antes disso tive que dar os cumprimentos a todos os outros convidados que estavam na sala, tios, tias, outras primas que já não eram tão próximas assim, pois eram do lado de minha mãe, e não tínhamos muito contato com a família dela infelizmente, pois eu sempre quis ter.
            Meu primo sempre se interessou na minha vida e eu na dele, sempre conversávamos sobre futuro e o que poderia acontecer se as coisas dessem errado. Ele era realmente inteligente e fazia planos a cada segundo que surgia uma oportunidade, estava começando a ficar muito bem estruturado financeiramente se comparado com o que era antes.
            - E aí! Minha bailarina... Como estão as coisas?
            - Sabe... Formei-me no balé e consegui meu DRT, agora estou dando aulas em academias de dança, vou tentar alguma coisa em companhias mais tarde.
            - Porque não tenta o Joinville Festival de Dança?
            - Não sei, não vejo motivos para isso.
            Ele riu.
            - Como não vê motivos? É lá que estarão as pessoas importantes da dança olhando-a, lá que você pode conseguir alguma coisa garota, acorda.
            É, eu já sabia de tudo isso, o problema é que para se destacar entre mais de 4 mil bailarinas, não seria uma coisa muito fácil, por isso me desanimava tanto, eu não sabia se estava preparada, minha própria insegurança estava começando a me irritar e me deixar mais insegura do que eu já era, para me mostrar em Joinville, eu teria que ter treinado muito mais do que fiz, pois muitas vão para lá apenas para cumprir as vagas, sempre é assim, em muitos eventos de várias outras coisas, mas eu não, se eu fosse me apresentar, teria que ser para conseguir alguma coisa, e isso que seria o mais difícil.
            Quando todos já estavam cansados de comer e jogar conversa fora, começaram a sair aos poucos, e é claro, isso vai levando todos os outros a saírem também, o irmão de meu pai foi o último a deixar a casa, pois eles sempre tinham conversas sérias sobre muitas coisas. O bom disso era que sobrava mais tempo com meus primos.
            - Tchau primas do meu coração! – Disse Vítor dando-nos um abraço.
            Elisa quase não largou de Vítor que estava rindo enquanto ela o abraçava com força, que coisa promissora, se apaixonar pelo primo de quase oito anos mais velho.
            - É... As crianças já estão expressando sentimentos muito antes do que antigamente! – Eu disse rindo, e depois Vítor e Alexandre riram juntos. Elisa ficou com raiva e deixou o lugar, subiu para seu quarto.
            Eles entraram no carro, acenaram, e então meu tio deu a partida, eles tinham que fazer o retorno no fim da rua para que pudessem subi-la, então fiquei esperando no portão para vê-los ir embora.
            -Não se esqueça de Joinville. – Ele disse passando depois do retorno e piscando um de seus olhos, após isso vi o carro dobrar a esquina. Fiquei pensativa sobre o que ele havia me dito, eu realmente precisava tomar a decisão entre ir ou não ir para o maior festival em numero de bailarinos no mundo. [...]

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