Eu estava muito bem aquecida com meu cobertor, mas já não aguentava mais ficar na cama, eu estava tentando, porque eu queria estar bem para a manhã seguinte, mas o sono havia passado pela tarde, e agora eu estava mais acordada do que nunca. Pensei no que eu poderia fazer, odiava ligar aquela televisão e ver tudo em inglês, não gostava de ficar pensando muito, e também não havia muitas outras coisas para se fazer então eu abri a janela, e me deparei com aquela cidade linda, Londres, e seus pedestres, suas árvores, seus prédios em arquitetura antiga, realmente, era uma tentação muito grande ficar ali dentro sem fazer nada, agora que meu inglês era fluente, eu poderia sair por aí, talvez esbarrar com alguém fazer alguma amizade, então larguei o medo, coloquei a roupa mais quente que eu tinha, desci as escadas do hotel, eram 9:00hrs da noite, o frio estava congelando minhas mãos, eu não havia levado luvas, então, pensei que se eu desse uma volta acharia algum lugar que pudesse vende-las para mim.
          Andei mais do que eu havia imaginado e não encontrei nenhuma loja, perto daquele local só tinham hotéis, e algumas casas, mas depois de andar um pouco, já com as mãos praticamente congeladas, eu achei um pequeno local chamado “The Mall Tavern” eu entrei no local a fim de comprar algo quente para beber e aproveitar para esquentar as minhas mãos é claro. Eu consegui fazer o meu pedido, tomei um chocolate quente feito pelos Ingleses, nossa, nunca havia sentido nada igual como aquele gosto, de qualquer forma, a caneca serviu para dar uma esquentada em minhas mãos, e decidi voltar para o hotel, já que não estava encontrando nenhum lugar que pudesse me fornecer alguma coisa para colocar nas mãos.
          Chegando novamente ao hotel, entrei no meu quarto, mas percebi que realmente eu não conseguiria dormir de forma alguma, então decidi ficar justamente aguardando o tempo passar o máximo que eu conseguisse. Quando meu tédio estava chegando ao ápice, não pude fazer nada, a não ser ir até o local onde a outra garota brasileira estava hospedada, senti necessidade de fazer isso, mesmo sabendo que ela era uma completa idiota, eu precisava passar o meu tédio de alguma forma.
          Eu não havia imaginado que de certa forma, a moça estaria dormindo, ela não atendeu, então retornei para o meu quarto, e fiquei lá, apenas ouvindo o barulho de alguns carros passarem, até que comecei a me adaptar com a ideia de que estava na hora de dormir, e o sono caiu sobre mim novamente, então eu fui deitar sem lamentação. Quando acordei novamente, lá estava Lincoln batendo na porta de meu quarto desesperadamente, gritando por meu nome, percebi que ele estava ficando impaciente, e eu ainda estava deitada na cama, tive que correr até a porta e abri-la rapidamente, mesmo estando vestida com uma calça e blusa de moletom velho.
          - Lincoln?!
          - Você está pronta? – Ele perguntou sabendo a resposta, e vendo-me apenas fazer uma expressão negativa. – Vá se trocar o mais rápido possível, você tem que vir fazer o teste, muitas garotas já estão no estúdio.
          - Tudo bem, me espere aqui, eu já volto.
          Corri o mais rápido que pude para o banheiro, dei uma olhada no meu cabelo, estava horrível, percebi que iria demorar alguns minutos para deixa-lo em condições de preparar o coque, então fui correndo até minha mala, peguei meu collant, me vesti rapidamente, e comecei a colocar os objetos principais em uma bolsa da qual eu sempre usava, fita, sapatilha, gel, etc...
          Quando terminei de arrumar o meu cabelo, coloquei um moletom atlético que eu tinha, fechei-o pelo zíper, depois coloquei uma calça capri e logo após calcei meu tênis. Passando novamente pelo espelho, só para conferir se eu estava pronta, me deparei com meu celular, lá estava uma chamada perdida, não pude ver no momento do que se tratava. Então me direcionei para fora do quarto, e sai do hotel na companhia de Lincoln.
          - Você demorou muito. – Ele disse. – O que fazer com você mocinha? Eu reparei no que eles estão pedindo, e saiba que não será tão fácil.
          As pessoas sempre adoraram me assustar, nós andamos alguns metros da Queen’s Gate e depois dobramos a esquina, entrando em uma rua muito pequena, o que lembraria uma viela no Brasil, o nome da rua era Jay Mews, essa era a rua que se localizava o English National Ballet, logo quando cheguei ali, percebi que se tratava do local, muitas portas espelhadas em um estilo muito clássico faziam daquele lugar um verdadeiro local de dança. Entramos em uma rua particular ao lado, era a rua onde ficavam os carros estacionados e a pequena portaria no ENB. Depois de passar por muitas pessoas que não pareciam estar felizes de me ver ali, chegamos a um corredor que estavam muitas garotas reunidas, sentadas, se concentrando, ouvindo música, conversando, se descontraindo, algumas estavam esperando os ensaios começarem, era as bailarinas oficiais da companhia, e outras estavam na minha situação, totalmente perdidas, esperando alguém falar o que elas precisavam fazer.
          Isso não demorou muito, até começarmos a ouvir uma música clássica um tanto agressiva, eu tinha certeza que era Hans Zimmer, mas eu não estava acostumada a dançar esse tipo de estilo, então fiquei com mais medo do que eu já estava, até que uma mulher de cabelos brancos nos chamou para entrar no salão. Lá estavam todas as garotas, e eu, nem um pouco preparada para nenhum tipo de teste, mas não importava, a música soava e a mulher começou a nos organizar em um círculo, eu já sabia onde isso iria dar, por isso fiquei mais intimidada do que nunca.
          - O English National Ballet, selecionou todas vocês de alguma forma por um simples motivo. – Ela começou a dizer pausadamente. – Pois nós queremos inovar o espírito desta companhia, e só as bailarinas que estiverem prontas para isso, permanecerão aqui.
          Ela começou a olhar para os nossos corpos, a cada atitude que ela tinha eu ficava mais encabulada, já que as coisas não estavam me favorecendo de forma alguma, analisar o corpo? O meu era quase perfeito, mas ainda tinha aquelas características do corpo brasileiro, que eu sempre ignorei por não fazer diferença até agora.
          Mas tudo bem, ela não reclamou de nada, mesmo tendo dado uma olhada estranha para mim, segurou no braço de uma garota e levou-a até o centro do círculo, a música continuava a tocar.
          - Fique na 3ª posição. – A mulher disse para a garota. – Muito bem, agora quero ver a sua criatividade brilhando.
          Ela trocou de música, começou a tocar outra com fundo animado e tenebroso, um leve toque continuo de violino levava o som para dentro de seu corpo, e então a garota começou a dançar, usando tudo o que tinha em sua mente, sentindo a música, como aquela garota era incrível, continuou dançando perfeitamente, classicamente, técnica fluindo para todos os lados do corpo, leveza imbatível, e só era a primeira que estava dançando ali, comecei a imaginar a disputa que isso traria, e como o resto das garotas reagiriam.
           - Quero que acompanhem a música, sintam-se a vontade, quero vê-las dançando de verdade, mostrando o seu melhor. Quero que a próxima garota entre no ritmo e tire a anterior do palco, vamos lá pessoal.
          Outra garota começou a colocar piruetas em cima do ritmo, perfeitamente, e entrou em cena dançando como se passasse por testes a cada dia de sua vida, ela estava confiante, a garota anterior saiu caminhando para fora da sala, talvez por saber que tinha qualidade o suficiente para estar dentro sem mais questões. Eu tinha certeza que elas nunca haviam dançado aquele estilo de música clássica antes, porém elas conseguiam se sair muito bem, então comecei a pensar que eu poderia me sair tão bem quanto elas, mas ainda estava completamente congelada, com um medo tremendo de entrar, enquanto outras, completamente animadas, prontas para dar o seu melhor e bilhar diante daquela mulher. Quando ouve a troca de músicas, uma garota entrou, uma garota que eu jamais vou esquecer, a melhor dançarina que eu já havia visto dançar fora de palcos profissionais, e talvez quem sabe a melhor de todas. Os passos eram perfeitos, a expressão corporal e leveza também, ela era linda, a mais esguia do local, ela passava a impressão que a dança era uma coisa fácil, nós tentávamos fazer isso, é um dos grandes objetivos de uma bailarina, mas fazer como aquela garota estava fazendo? Não entendi como ela ainda não dançava em uma companhia.
          - Pare! – A mulher disse. – Pare de dançar nesse momento. Você já dançou em alguma outra companhia?
          - Dancei no Bolshoi, NYCB, e dancei apenas um espetáculo com o Kirov.
          Estava definitivamente explicado, a garota era Sérvia, e havia dançado em três das cinco principais companhias de ballet no mundo, todos ali se intimidaram com ela, quando a mulher de cabelos brancos voltou a música, ela continuou a dançar, mas ninguém quis se atrever a tirar a garota de lá, apesar de tamanha habilidade, parecia ser uma das mais novas do local, ela era incrível, não tinha um quesito técnico que pudesse ser criticado, então a grande questão era, se ela havia dançado em tais companhias, qual era o motivo de estar no English National? Não que o ENB fosse inferior tecnicamente, porém historicamente ainda estava gatinhando perto das citadas como Bolshoi e Kirov, fora o salário muito diferente entre essas organizações, e mesmo que o dinheiro não justifica-se, por que não dançar com garotas do mesmo nível? Foi uma questão que ficou em minha cabeça, mas eu ignorei de momento, estava me concentrando, sim, eu iria entrar no lugar dela, de tão impressionada que fiquei, pensei em tomar essa iniciativa, e eu estava decidida, eu iria a qualquer momento. [...]  

Deixe um comentário

Comentários ofensivos e/ou preconceituosos não serão aceitos.

Obrigado por visitar e comentar.