Como só fui parar para reparar em como o tempo da vida passa rápido, após terminar a escola, o balé, e todas as outras atividades estudantis que eu vinha fazendo até o momento? Pois é, acho que nunca considerei que um dia eu estaria aqui, nessa posição, diante de momentos que você deve tomar algum rumo exato para sua vida, ou no meu caso terminar a vida dando aulas de balé para o resto da eternidade.
            Então meu primo havia falado para mim sobre o festival de Joinville, eu não estava nada familiarizada com o ambiente competitivo do balé, eu estava pronta somente para mostrar as minhas habilidades em interpretar, que estava ficando melhores a cada dia que passava, pois agora minha preguiça havia passado, e treinar tornou-se uma rotina, afinal, eu precisava disso se quisesse ter o mínimo de brilho em um festival de tal grandeza.
            As inscrições para o festival já estavam acontecendo, eu não tomava coragem para me inscrever no site e enfim terminar com esse tormento, eu estava consultando alguns amigos, Layla também iria competir, ela queria muito isso, não sei muito bem se ela conseguiria chegar longe, já que eu estava com dúvidas sobre eu mesma, mas para mim, ela era uma grande ajuda, alguém conhecido que estaria na hora comigo, isso daria mais conforto e calma nos momentos mais dramáticos, ou seja, aqueles vinte minutos antes das cortinas se abrirem.
            Enfim tomei a coragem, e tomei uma decisão correta, me inscrevi, o problema era que eu precisava competir na parte mais difícil, onde estavam competindo algumas bailarinas já de algumas companhias conceituadas no Brasil, e competiam apenas para vencer, e não para ganhar algum espaço ou alguma visão. Mas como dizia Layla, isso não era problema, as bailarinas de companhias não eram tão vistas como nós, as que estavam apenas tentando alguma chance, já que um dos grandes objetivos desse festival é reunir talentos juntos no mesmo local, para selecionarem as melhores no que fazem, e talvez quem sabe dali, elas consigam um encaminhamento direto.
            A categoria avançada era geralmente a mais badalada, porém não a mais “olhada” pelos famosos “olheiros”. Já que eles queriam tirar as grandes revelações das categorias de base, ou seja, Junior e Sênior, então o que eu poderia fazer, era me destacar ao máximo, ser impecável, não demonstrar emoções diferentes da interpretação, e de forma alguma, de forma alguma demonstrar insegurança, o que seria o mais difícil para mim, a garota mais insegura do planeta nos momentos complicados da vida.
            Fora saber que essa era uma competição extremamente complexa, eu ainda precisava gastar quarenta reais para a minha inscrição, taxa paga geralmente pelos pais das garotas, coisa que meu lindo e querido gerador, não estaria dando à mínima. Tudo bem, eu não precisava dele nesse momento, estava bem estabilizada, mas o que me dói é pensar que se eu necessitasse, ficaria da mão completamente desolada.
            Agora o festival era a próxima etapa de minha vida, mas antes eu ainda precisava ver alguns pequenos detalhes que pareciam não fazer tanta diferença, mas faziam. Por exemplo, havia tempos que algumas antigas amigas da escola me chamavam parar sair, e eu? Apenas dizia não é claro, sem chance nenhum de aceitar, precisava treinar, treinar e treinar. Até que eu cheguei na conclusão que se não tivesse o mínimo de diversão, não estaria bem para realizar a minha vida profissional, pois muitos podem descordar, mas eu sabia de uma coisa, a diversão é essencial para uma vida balanceada, não importa o quanto ela é difícil, é necessário “tirar uma onda” de vez em quando.
            Foi o que eu fiz, não desperdicei o meu tempo livre sentando-me no sofá para ver algum programa idiota, ou simplesmente para passar o tempo, minhas “amigas” me chamaram para sair, dar um passeio de carro até a praia, virar a noite acampando e voltar no dia seguinte, que no caso era domingo, então eu não teria realmente nada para fazer.
            Aquelas garotas gostavam de se aparecer, e eu sendo considerada muito bonita, seria um ótimo partido para estar junto delas, os rapazes na praia e tudo mais, na verdade eu sabia no que tudo isso iria acabar, talvez em uma coisa que eu não estivesse preparada para fazer, mas mesmo assim, eu quis curtir a vida e aceitei o convite, coloquei um shorts jeans curto, um tanto promiscuo para mim naquela época, e uma blusinha comum, para os pés usei apenas um tênis esportivo, elas chegaram em minha casa com um lindo S.U.V prateado, realmente, algumas garotas da escola tinham um bom dinheiro, e agora acabando de fazer seus 18 anos, estavam aproveitando para gastar no que podiam, não imaginavam que ainda estavam dentro da sociedade pobre, e quando as coisas começassem a pegar fogo, elas ficariam para serem queimadas.
            - Onde você está indo? – Elisa perguntou quando me viu pegando a bolsa e saindo após algumas buzinadas das garotas.
            - Estou saindo com algumas amigas, vá dormir depois de sua série, vou chegar tarde, então nem me espere acordada, será perda de tempo.
            Ela ficou me olhando estranhamente, mas no fim parou de me seguir com seu olhar, percebeu que eu não estava indo para algum lugar social ou acadêmico, mas não importa, eu não queria dar mal exemplo para ela, mas como eu disse, precisava acordar para a vida, e não estava mais me importando com o senso comum.
            O carro partiu, e foi aquela festa, se eu não me engano eram cinco garotas, no inicio eu sabia, mas depois de um tempo parei de prestar a atenção, como eu disse anteriormente, adorava ver as coisas passarem enquanto o carro se movimentava mais rápido e mais rápido. Três delas eu nunca tinha visto antes, pareciam as mais promiscuas do grupo, as outras duas eram colegas de sala, das quais eu quase nem falava, mas começaram uma incrível perseguição por garotas bonitas após terminarem o colégio, a explicação para isso? Fazer o grupo das garotas mais bonitas, o mais procurado, ganhar popularidade fora da escola, em ambientes diferentes. Então eu fiquei pensando enquanto via o chão correndo velozmente, o motivo para isso. Elas já não estavam felizes em serem populares na escola? Queriam morrer com essa vida medíocre e fútil? O que eu estava fazendo ali com elas? Eu comecei a me arrepender instantaneamente, mas agora não poderia fazer mais nada, a não ser pedir para elas pararem o carro e descer, porém o que isso significaria mais uma vez em minha vida? Que eu era a garota mais insegura do planeta, que não sabia o que eu estava fazendo, e apesar de considerar um erro até hoje em minha vida, decidi ir até o fim naquela jornada em direção a diversão.
            Chegando a praia, começamos a andar pela avenida, na orla, ela estava passando com o carro bem devagar, e eu pensando sozinha, apenas ouvindo a conversa daquelas lunáticas, e mais uma vez questionando no que eu havia me colocado.
            - Não precisa ser tão bonito, precisa ser magro! – Uma delas dizia.
            - Chame qualquer um que vier pela frente, todos os garotos da praia servem, alguns podem ser feios, mas outros são bons de cama!
            No momento a orla estava vazia, e era isso que me assustava mais, pelo menos se alguma delas fizesse uma loucura com o local cheio, alguém poderia me salvar, um policial, alguma pessoa comum que estivesse passando, mas quando eu menos esperava, outro S.U.V, de cor preta começou a nos acompanhar lateralmente, as garotas ficaram todas animadas, achando que eram os garotos dos sonhos. E quando o carro abriu as janelas, elas perceberam que realmente eram os garotos dos sonhos. Havia mais de três lá, todos loiros de olhos claros, com o bronzeado natural da praia, o típico boneco da Barbie.
            O que eu não esperava é que eles começassem a acelerar em seco ao nosso lado, criando toda aquela fumaça que tinha um cheiro horrível de pneu queimado, e isso deixou as meninas mais animadas ainda, meu deus, até onde vai à inocência e burrice humana? Eu nunca tinha visto algo pior em minha vida, até o momento que um dos garotos gritou:
            - Vamos apostar uma corrida até o quilômetro 35? Se vocês chegarem primeiro, decidem o que querem, mas se chegarmos primeiro, vamos para uma festinha particular na areia?
            O grande problema não foi a pergunta que aquele idiota estava fazendo, ou o desafio dele, o problema verdadeiro, é que aquelas garotas também idiotas, aceitaram, e então, quando chegaram no marcador no quilômetro seguinte, começaram a acelerar, nesse momento eu comecei a ficar com medo.
            - Por que estamos fazendo isso? – Perguntei. – Se querem fazer sexo com eles, apenas façam!
            - Ah! Cale a boca! – Outra garota me respondeu. – Se não agüenta um desafio pode pular do carro.
            Teria sido a melhor decisão da minha vida, pois eu me arrependo eternamentede ter ficado ali, só há algumas coisas que podem acontecer quando está disputando um “racha” na orla de uma praia quase sem movimento algum. Uma delas é uma moto que não espera encontrar ninguém na avenida, dobrar a esquina em alta velocidade, e isso aconteceu infelizmente. A garota que estava dirigindo ficou com medo e virou o carro, foi quando uma das rodas bateu com muita força na calçada, perdemos completamente o controle, eu estava sem sinto, fui jogada para o banco da frente e bati a minha cabeça, no momento em que eu estava limpando o sangue em minhas testa, a trava dos bancos de trás se soltaram, levando-o até o da frente, assim prensando a minha perna entre os dois bancos.
            - Aaaah! – Eu gritei sentindo a maior dor que eu já havia sentido. – Por favor alguém me ajude. 
            Ninguém poderia fazer nada, o banco havia destravado pois estávamos derrapando até batermos em um poste, foi quando o banco parou de prensar-me e se afastou para trás novamente. Eu tinha certeza, acabara de quebrar a minha perna, cai no assoalho no carro chorando, não percebi o estado das outras garotas, até os rapazes do outro carro abrirem a porta, foi aí que desmaiei de dor. 

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