Eu não estava mais agüentando essa vida complicada, porque tudo isso tinha que acontecer comigo? Tudo bem, eu entendo, é a causa do efeito, não importa o que houve comigo, fui eu mesma que projetei toda essa história, eu tomei as decisões, vivi, decidindo um caminho e não o outro e esse caminho me levou até aqui, uma garota no hospital, ensangüentada, machucada, que mal pode falar direito, mas de qualquer forma, não estou chateada.
            O festival de dança é uma coisa que pode ser esquecida completamente, não existe mais, não terei tempo para treinar ou fazer alguma coisa, então o fato é que, minha carreira poderia estar arruinada nesse momento, e meu espírito de superação não estava colaborando muito, por mim, eu já teria desistido, e ficado naquela cama para sempre. Mas eu tinha que tirar minha irmã de sua vida indigna, eu tinha que dar um tratamento fortificado para Elisa, eu não queria vê-la em estado crítico novamente, não queria nem ter essa possibilidade em minha cabeça.
            Eu não estava justamente com medo que nada acontecesse comigo, eu estava bem, estava ali sentindo. O que havia acontecido com as outras garotas? Eu não tinha a menor idéia no momento, mas também não era a minha maior preocupação, minha maior preocupação era sem dúvida as coisas que meu pai iria gritar quando chegasse no hospital, fora a vergonha, eu teria que ouvi-lo gritando, e aquilo me deixava nervosa, extremamente nervosa.


            E realmente, quando ele havia chegado, ouvi a voz de Elisa, pelo menos foi a única coisa confortante no momento, pois a partir disso era só esperar tudo passar, ignorar o que o velho estava falando, e depois seguir a minha vida tranquilamente, voltar para as aulas, e buscar outras competições de balé.
            - O que você fez? – Meu pai perguntou em seu alto tom. – Porque você fez isso? Não sabe mais onde está a sua vida? O único jeito de você mudar de vida é dançando, pois é a única coisa que sabe fazer, pensar que é bom, está longe de aprender.
            Elisa estava rindo atrás dele, o que me fazia sentir melhor, já que ela estava ali, não importava aquele homem gritando, só porque era meu pai, eu não precisava ficar escutando ele como se eu tivesse três anos, não pedi para ele vir até o hospital. O bom, é que quando ele parou de gritar, minha irmã pôde vir até mim, e me dar um quente abraço, eu me senti totalmente melhor nesse momento, praticamente pronta para me levantar.
            - Esqueceu de nosso trato? – Elisa perguntou. – Eu não te preocupo, você não me preocupa.
            - Eu lembro sim meu doce anjo! Me desculpe por isso, eu nunca mais vou te dar alguma preocupação, vou começar a cumprir minha parte, assim você poderá cumprir sempre a sua.
            Nada do que houve importava, apenas minha vida momentânea havia sido estragada, mas logo que pude voltei a treinar duro, e não perdi tempo, não para as minhas habilidades. Realmente, eu havia perdido o Festival de Joinville, do qual eu estava praticamente preparada para bilhar, eu tinha ganhado confiança, tanta confiança que fui fazer a besteira que fiz.
            Depois de muito tempo da apresentação da Escola Municipal de Bailado, descobri que um homem estava me procurando, ele estava querendo saber sobre mim, mas quando recebi o recado de Layla, não me interessei muito, esperei que fosse qualquer idiota de escolas de balé querendo me contratar para ser professora.
            Após alguns dias tentando fugir dele nos telefonemas, eu decidi que era melhor me resolver com ele, para ficar em paz finalmente, e me preocupar mais com meus treinos do que com qualquer um querendo me contratar. Porém, muitos diziam que eu era muito presunçosa, e eles estavam certos, pois eu deveria checar as coisas antes de tentar adivinhar.
            - Como vai? – Perguntei ao rapaz.
            - Muito bem, estou tentando falar com você há tempos!
            - É que eu ando muito ocupada, treinando, você sabe como é.
            - Sei sim! Eu queria lhe fazer uma proposta.
            Chegamos ao ponto que eu mais esperava, agora seria apenas recusar a proposta idiota, e dizer que não havia possibilidade nenhuma de aceitá-la. Apesar de tudo, o rapaz que estava falando comigo era lindo, então eu poderia continuar a conversa por mais alguns instantes só para reparar em seus olhos azuis completamente estrangeiros. Estrangeiros! Foi aí que comecei a perceber alguma coisa estranha naquela expressão, no modo de falar o português, muito correto, muito exato e diferente, praticamente luso. Notei, ele não era brasileiro, falava minha língua muito bem, mas definitivamente, não era de dentro do país, e então comecei a me interessar, e deixar de lado a parte da “proposta ridícula”, começando a ouvir com cuidado o que ele tinha para me dizer.
            -... Eu queria lhe fazer um convite, mas é uma decisão muito séria a ser tomada, eu vi você dançar aquele dia, e tenho que lhe dizer, você é muito talentosa.
            - Você é do Brasil? – Perguntei indecentemente. – Porque, o jeito que você fala, está denunciando outra coisa!
            - Realmente! – Ele riu. – Eu não sou brasileiro, mas estou aqui para fazer-lhe uma proposta, quero levar você até a Inglaterra.
            - Inglaterra?! – Fiquei impressionada no momento. – Mas... Por que?
            - Eu trabalho no English National Ballet, sou pianista, mas de tempos pra cá venho ganhando bastante importância naquela escola, como um bom entendedor do assunto. Há algum tempo estou em uma “turnê” mundial em busca de garotas, eu já selecionei algumas, o fato é que o ENB está precisando de garotas qualificadas, estamos perdendo muitas bailarinas, e perdendo em qualidade para o Bolshoi e tantas outras, logo, fui enviado para descobrir novos talentos, dos quais estavam sendo roubados por outras companhias.
            Ao fim da conversa, ele me pediu um telefone de contato, um endereço e me passou o mesmo. Disse que eu precisava mesmo procurá-lo, ele saberia estudar os meus talentos e me tornar uma bailarina mais do que perfeita, usando a justificativa de sua grande experiência com a dança, por estar a um bom tempo na escola e ter uma boa influência.
            No momento eu fiquei tão confusa, eu sempre fico. Então eu estava simplesmente sendo convidada para uma companhia de balé? Meu Deus, como as coisas aconteceram mais rápido do que eu imaginava, talvez se eu tivesse mais tempo para pensar no momento, teria refletido melhor sobre todas as possibilidades. Mas pra mim, não importava é claro, eu estava me direcionando para uma companhia internacional e conceituada, não importa se eles estão com bailarinas em falta ou alguma coisa assim, todos que não acreditaram na minha habilidade iriam ficar de queixo caído quando ouvissem falar que eu estava em outro país, dançando, enquanto eles estavam ali, morrendo de trabalhar, pois não acreditaram em um sonho.
            Meu pai não teve uma reação boa, é claro. Ele ficou complexado, não quis aceitar a idéia de início, porém ele não tinha muitas opções, meu aniversário estava chegando e a maioridade já era uma certeza, se ele não assinasse a minha viagem internacional, ele só estaria atrasando alguns segundos a minha saída daquela casa, e é claro que o mais rápido que eu pudesse, tiraria minha irmã daquele inferno que era viver com ele.
            No final das contas, ele teve que permitir a minha saída, e minha irmã é claro, ficou sentindo minha falta antes mesmo de eu partir, a cada segundo era um abraço, a cada minuto um beijo, ela queria aproveitar os últimos momentos que teria comigo, sem saber ao menos que eu poderia voltar logo após a minha ida, já que antes de entrar para uma companhia é necessário uma audiência muito pesada, que avalia o que de bom você estará trazendo para aquela “empresa” de dança, que com certeza não queria estar atrás das outras.
            Os bailarinos nas companhias são como jogadores de futebol em um time, existem os figurantes, o grande corpo que compõe o exército, e os destaques, não muda muito de todos os outros esportes por equipes, porém o balé não é um esporte, nunca foi e nunca será, o balé é dança, significa que é uma arte, todos que estão ali, diferente dos atletas, são artistas, e essa palavra pesa tanto em alguém, ser uma pessoa que faz a arte, que passa isso para as pessoas, é uma responsabilidade muito maior do que a de um atleta, e era essa a vida, que eu havia planejado por completo para mim.
            Com as datas todas marcadas, eu aproveitava meus últimos momentos com Elisa, e Layla, minha melhor amiga. Agora eu sábia, que Elisa estaria em boas mãos, já que minha amiga me prometeu que daria sempre um apoio para minha irmã, sempre que ela precisasse, e por isso eu adorava tanto a Layla, ela estava fazendo o papel de amiga perfeita, uma pessoa difícil de se encontrar. O jeito agora era esperar o grande dia, eu conversei muito com o pianista que me convidou para meu próximo momento maravilhoso da vida, a propósito, o nome dele era Lincoln, ele era extremamente simpático, e muito lindo, confesso que se não fosse tantos anos mais velho, eu não resistiria à todas aquelas “cantadas” do em nossas conversas. Enfim, eu estava pronta, a época da minha vida que sempre sonhei, havia chegado.
            

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