Eu estava pronta para ir a maior aventura da minha vida, os contatos já estavam fechados, eu já havia me despedido de todos os meus amigos mais próximos, inclusive de todos aqueles que não eram tão próximos também, apenas para eles perguntarem o porquê eu estava me despedindo, e eu orgulhosa de mim mesma, dizer que eu estava viajando para a Europa, como uma profissional da dança.
          Apesar de necessitar de um teste, geralmente eles não desperdiçam tempo chamando qualquer pessoa para não aceita-las, quando um convite é feito, o sucesso está praticamente garantido, eu estava pronta para passar por tudo aquilo, minha irmã coitada, ainda não conseguia entender como ela iria conseguir passar esse tempo sem mim, apenas na presença de meu pai, eu com certeza pensaria nela em cada segundo, e precisaria entrar em contato sempre que pudesse, porque eu realmente necessitaria de saber como ela estava, ou então não ficaria tranquila, e isso poderia estragar o meu grande início de carreira.
          Chegou o momento que eu estava arrumando os últimos detalhes para me encaminhar ao aeroporto, este dia eu me lembro como se fosse ontem, o dia que abandonei a minha família por motivos maiores, um dia que eu sempre esperei, mas nunca pensei que seria tão difícil engolir aquilo, de início, com certeza que estava muito feliz, porém quando vi o rosto de minha irmã, sabendo que seria a última vez em pelo menos um ano, fiquei emocionada, tão triste que não aguentei e despenquei em lágrimas.
          - Elisa, eu juro que venho te buscar se tudo der certo! – Eu disse a ela chorando. – Nunca pense que eu esqueci você, você é minha boneca de porcelana!
          - Eu sei que você não vai se esquecer de mim! A Layla vai estar sempre do meu lado para me ajudar com as coisas, ela é sua amiga, ela prometeu.
          - Minha irmã, eu sentirei sua falta a cada segundo que passar depois de eu entrar naquele táxi, nunca se esqueça de entrar em contato comigo pelo computador e pelo celular, eu te amo!
          - Eu também te amo! – Ela retrucou imediatamente.
          Dei um abraço muito apertado nela, ela também estava quase chorando, porém segurou suas emoções muito mais do que eu, afinal até uma criança poderia ser mais segura de seus sentimentos, eu não sabia se era hora de comemorar totalmente a minha independência, ou se era o momento de ficar triste, por estar deixando minha querida Elisa.
          Tive que me virar e deixar o local, de qualquer jeito fui em direção ao táxi, ainda olhando para Elisa, pensei em meu pai, ele estava dentro de casa, não fez questão de me dar um abraço, não fez questão de dizer “adeus”, comecei a imaginar que isso era tudo o que ele queria, se ver livre de mim, e provavelmente queria se ver livre de Elisa também.
          - Para onde?! – O taxista perguntou.
          - Aeroporto.
          Agora, comecei a observar todas as coisas passarem, porém dessa vez foi completamente diferente, eu estava olhando para aquelas coisas pela última vez nos próximos meses, as casas, as janelas, as pessoas, os carros, era como se eu estivesse me libertando de uma realidade completamente chata, da qual eu sempre tive repulsa e vontade de deixa-la, mas agora que eu consegui o que eu mais queria, que era realmente deixa-la, estava me vendo diante de uma situação de saudade, de algo que nem ao menos eu ainda havia deixado, mais uma vez cheguei à conclusão de que eu era a garota mais insegura do planeta.
          Quando desci do táxi, no aeroporto, logo avistei Lincoln, ele estava lá parado me esperando, com mais uma garota, um bom sinal, ele havia selecionado outra brasileira, estávamos então tendo um bom progresso eu imaginei, rezei para que ela fosse tão boa quanto eu, e estivesse pronta para passar pela seleção, mas quando cheguei perto dela, percebi que era tão arrogante e chata, que preferi deixar este pensamento para lá.
          - Olá! – Eu disse a eles.
          - Olá! – Lincoln respondeu dando-me um leve beijo no rosto. – Você está linda como sempre, vamos caminhando que nosso voo já está chegando.
          - Claro! – A garota disse. – Essa sua outra bailarina está atrasada, espero que ela não seja assim nos passos, ou então ficará fora.
          - Ela não ficará fora! – Lincoln retrucou. – Ela é uma das melhores que eu já vi dançar fora da Rússia ou da Inglaterra, porém precisa de um bom tratamento, melhorar algumas técnicas, leveza e execução dos passos.
          Ela me olhou de forma não muito agradável, parecia estar com inveja, mas acima de tudo estava com raiva. Por que tudo aquilo? Se ela estava ali, provavelmente era tão boa quanto eu, mas já estava criando barreiras para si própria, em vez de tentar fazer amizade com uma pessoa do mesmo local, já que estava se preparando para sair do país.
          Percebi no mesmo momento que provavelmente se tratava de uma garota com dinheiro, que não estava preocupada com o que aconteceria, pois de qualquer forma teria sua vida garantida, dançava por capricho, e não porque era uma coisa que amava fazer, ou porque ali encontrou um refúgio para alguma coisa, como foi um de meus casos.
          O voo foi horrível, teve muita turbulência no começo, mas depois fiquei mais relaxada, na decolagem, olhei pela janela tudo o que eu poderia observar passando, como aquelas estações da vida, acho que eu não conseguiria mudar este costume mesmo viajando em uma nave espacial, provavelmente observaria o vácuo passando, como a minha vida.
          No fim, consegui dormir, e quando acordei, não me dei conta que já havia se passado algumas horas, e que já estávamos chegando na hora do pouso, não percebi a minha saída do território nacional, como não percebi estar sobrevoando o oceano, e muito menos a minha entrada no continente europeu, porém, tudo isso havia acontecido e lá estava eu, pronta para pisar em território estrangeiro pela primeira vez em minha vida, como eu me senti especial nesse momento.
          Desci do avião, agora eu estava na Inglaterra, muito frio, realmente, o clima estava tão diferente que senti uma dor de cabeça insana depois de dar alguns passos no local. Lincoln nos levou até um táxi, deu instruções para o motorista e depois começamos uma longa jornada de carro, até que depois de outro cochilo, chegamos em uma avenida movimentada, que apesar do tempo, estava cheia de pedestres também, a avenida se chamava Queen’s Gate. Então descemos do táxi, caminhamos em direção ao John Howard Hotel, ele era muito bonito por fora, e quando entramos percebi que se tratava de um lugar muito caro, Lincoln estava bancando tudo.
          - Minhas garotas comem e bebem do melhor, se é que me entendem. – Ele disse dando as chaves dos quartos para nós. – Ficarão hospedadas aqui enquanto estiverem no ENB, não esqueçam que essa oportunidade é única, e brilhem amanhã no dia de testes.
          Aquele rapaz sempre deixava um sorriso ao final de cada frase, como ele era lindo e simpático, impossível não prestar atenção nos seus traços, mas eu não estava querendo saber disso no momento, só estava pensando no que eu faria amanhã para me mostrar qualificada. Mesmo sabendo que eles pediriam uma passagem específica, eu estava imaginando cada detalhe e cada passo de cada uma delas, já que eu não sabia qual surpresa poderia vir.
          Tudo bem, era só manter a calma, tirei meu sapato, tirei o sinto de minha calça, não consegui tirar a meia, pois estava muito frio, abri minhas malas e troquei minha calça jeans por uma calça de moletom, fiz a troca o mais rápido que eu pude, não tive coragem de tomar banho naquela temperatura, mas não importa, já havia tomado no Brasil antes de sair, então eu estava limpa.
          A ida até a Inglaterra havia me deixado completamente cansada, eu até tentei ver televisão, mas o inglês estava me enjoando de fazer pensar, comecei a pegar no sono, cada vez mais forte, mesmo estando de manhã, eu não estava conseguindo me controlar, meus olhos estavam ardendo e eu estava quase caindo, até que decidi fechar as janelas com aquelas cortinas de um tecido que eu não identifiquei, e de repente caí na cama sem poder pensar em nada, quando me dei conta, já estava sonhando com as coisas que eu estava passando na vida. 

Um Comentário

  1. já esta no capítulo 9 vou procura o comecinha pra eu dá uma lida

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