Enquanto a grande bailarina dançava, a tensão sobre meu corpo subia, e tudo que eu tentaria fazer estava passando pela minha cabeça, por que desistir agora? Eu já havia me comprometido psicologicamente com isso, então essa seria minha primeira necessidade de superação dentro do ENB. Pensei que talvez isso pudesse me ajudar ou que aquela mulher pudesse me olhar com outros olhos a partir desse momento, mas quando testei, vi que foi completamente nulo.
          A música continuava a soar, fortemente, entrei com piruetas sincronizadas em direção a garota, ela se afastou momentaneamente, então eu dei um leve sorriso como se a missão estivesse cumprida, mas no fundo não estava, pois ainda tinha muito que dançar, e agora a minha criatividade estava quase no fim já a música estava ainda no começo, este estilo de clássico é muito lento para desenvolver passos, e de repente muda completamente de compasso, eu estava dando o meu máximo, mas comecei a perceber que minha dança não tinha nível algum para competir com aquela garota.
          Quando ela voltou, fui obrigada a me retirar, e então a garota começou mostrar todo o talento novamente, eu estava sendo definitivamente humilhada, eu estava cansada, e ainda todos esperando alguma coisa de mim, tornei aquele ato de coragem em uma das maiores decepções da minha vida, todos estavam olhando para mim, como se eu tivesse fingido que poderia enfrenta-la, mas espere um momento, o ballet não é uma competição, então porque tudo isso estava vindo em minha cabeça? Comecei a ficar tão chateada que fui para trás da sala, apenas assistindo o show particular dela.
          No fim, tudo deu um pouco certo, a mulher um tanto velha, indicou algumas garotas que não serviam para continuar dançando, uma delas, era a outra Brasileira, a que estava no mesmo hotel comigo, tal qual eu ainda considerava muito importante para o meu desenvolvimento lá dentro, agora eu realmente estaria sozinha, e o que seria de mim com todas lá me vendo como uma fraca? Eu pensei que estava perdida, afinal, quem não pensaria em minha pobre situação?
          - Boa tentativa! – Uma garota disse passando por mim no corredor. – Só mais alguns anos de treino!
          - Vocês ouviram? – Outra garota gritou no corredor. – Tentaram tirar a Kochitova do círculo, e foi uma novata Brasileira!
          - Brasileira?! – Continuavam comentando. – O que uma garota dos lados florestais está fazendo no English National Ballet?
          - Obra do Lincoln! Só pode.
          Passado algum tempo, todas nós ficamos organizadas no corredor, esperando alguma coisa que não sabíamos o que era, talvez outro tipo de audição, talvez uma resposta concreta, talvez outro discurso insuportável, mas eu estava chegando a conclusão que aquilo era para testar a nossa paciência, porque era o que estava acontecendo comigo. Ter que esperar, já é um fato irritante, agora, ter que esperar algo que você não sabe o que é acontecer, ouvindo muitas garotas falarem mal de você, falarem que você é simplesmente um “nada” perto daquela garota estava começando a me deixar frustrada, me sentindo realmente um nada, então porque eu estava ali? Sim, a minha insegurança começou a contagiar todos os setores de minha mente, agora o que eu poderia fazer? Simplesmente nada, esperar aquela sensação passar, ou sair gritando com todas as garotas e desistir do sonho de dançar em uma grande companhia.
          Se não era suficiente me atazanar pelas costas, agora umas quatro garotas que demonstraram ser muito boas no momento da dança, juntaram-se e vieram em minha direção, já imaginei que não era coisa boa, iriam vir falar mal de mim, e eu já estava tão nervosa, comecei pensar se ignoraria, ou se no caso partiria para a agressão física sem sentido e seria expulsa da companhia ou do estado, do país, o que eu faria agora?
          - Ei você! – Chamou-me uma delas. – Sabe como são as coisas para as latinas aqui, não sabe? São logo jogadas fora, por não terem o corpo adequado, “gostosa”.
          - Você tem noção do que é desafiar aquela garota? – Outra perguntou-me. – Isso significa basicamente assinar o seu contrato de nunca mais dançar, sabe quem ela é?
          Quando eu iria balançar a cabeça de forma negativa, e tentar responder apenas com as palavras que eu havia ouvido dela, percebi que a mesma estava chegando em minha direção, eu estava ficando constrangida, mas eu não podia chorar, agora eu iria ser completamente humilhada, será que ninguém ali poderia me dar um único apoio? E quando achei que não existisse ninguém que pudesse fazer isso por mim, ouvi simplesmente uma palavra:
          - Danielle! – Disse a garota perfeita.
          Eu olhei para cima, e a vi estendendo a mão para mim, pensei que ela estava caçoando primeiramente, mas depois percebi que ela estava me cumprimentando verdadeiramente. Levantei-me e a cumprimentei, antes que eu pudesse dizer qualquer palavra ela tornou a falar:
          - Se não sabia quem eu era agora sabe... Danielle, mas meus amigos mais íntimos me chamam de Dani, é claro que para essas garotas, serve Kochitova, meu sobrenome.
          Uma das garotas que estavam me azucrinando, ficou impressionada com a atitude de Danielle, e caminhou em nossa direção, estava nervosa, parecia que algo estranho iria pular de dentro dela, talvez porque fosse uma fã maluca da moça ao meu lado, que coisa mais psicótica.
          - M-mas, Kochitova, ela é péssima!
          - Pode ser... – Danielle retrucou, e depois de um tempo de silêncio, tornou a falar. – Mas ela foi a única que se dispôs, vocês são fracas, por isso morrerão dançando como corpo de baile.
          Danielle colocou uma de suas mãos em minhas costas, e me encaminhou ao fim do corredor junto com ela, começamos a andar e então saímos da companhia, eu não estava entendendo, jurava que precisava esperar algo acontecer, mas realmente, ela já estava trocada, então, o que estava acontecendo ali?
          - Vá para o seu hotel e se troque. Vamos dar uma volta.
          - Tudo bem. – Eu respondi. – Mas posso saber por que não estamos esperando?
          - Essas garotas ficarão esperando eternamente por nada, a proposta do ballet se chama iniciativa! Vocês não tem noção do quanto eles gostam de brincar com esse tema... Agora vá, vá. Encontre em frente ao King George’s Park daqui 3 horas.
          De certa forma obedeci o que ela estava dizendo, mas não por submissão, e sim porque era a única pessoa que eu conhecia, e a única pessoa que se demostrou “aliada” dentro daquele local, por ser tão boa, já tinha até esquecido a disputa que existe entre as pessoas, deveria fazer um tempo que ganhava todos os papéis principais, comecei a perceber que ela era uma das melhores bailarinas do mundo, e além de tudo, todas as outras garotas estavam morrendo de inveja, pois queriam muito estar no meu lugar Bem, as coisas começaram a dar certo nos primeiros dias na Inglaterra, porém na minha cabeça isso ainda não significava que o resto iria dar, ainda estava com muito medo, muito longe de minha irmã, muito longe da Layla, e muito longe de minha casa.
          Nas horas mais demoradas que eu estava tendo em Londres, fiquei imaginando aonde aquela garota iria me levar, esperava apenas que não fosse em uma daquelas boates que passam nos filmes de dança, onde uma excelente bailarina está completamente envolvida com o hip-hop. Minha imaginação era fértil a ponto de ficar colocando essas interrogações ridículas de filme dentro de um mundo real. De qualquer jeito, vesti as melhores roupas que eu tinha, me maquiei o máximo que pude, sem deixar vestígios de que era exagerado, passei um bom perfume, dei uma última olhada em como estava meu inglês, pelo jeito excelente, havia conseguido me comunicar com todos sem problemas, mas algumas palavras sempre faltavam. Preparei-me para o interessante, e quando fui sair de casa, percebi meu celular tocando, não senti necessidade de atender, então apertei o botão vermelho e o joguei dentro da bolsa, abri um grande sorriso, desci as escadas, e parti em direção ao meu ponto de encontro, o que viria pela frente com Danielle Kochitova eu não sabia, mas tudo vindo dela me daria créditos com toda a companhia, e isso era um grande investimento em meu futuro, eu estava quase convencida de que tudo iria dar certo. [...]  

2 Comentários

  1. Ameii o post!
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    Participa lá ;)
    bjos

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  2. Amei todos os post, Tor e lindo a historia, seu blog esta um luxo. Bjos. Evany.

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