Eu nunca deveria ter quebrado com a minha palavra, eu deveria ter feito tudo o que eu disse quando eu sai de casa, foi complicado receber todas as informações ao mesmo tempo, e eu não percebi que minha irmã estava tentando se comunicar comigo, todos os dias a todo o momento, ela me ligava, me mandava mensagens e sempre eu achava que não tinha necessidade de se preocupar porque não era nada sério, tudo bem, nada aconteceu com ela, mas poderia ter acontecido, poderia ter acontecido e eu não ficaria sabendo, então por que eu estava indo sair em vez de tentar falar com a menina que eu mais amava no mundo?
         


Mesmo tendo consciência de tudo isso, eu precisava me preocupar comigo além de tudo, eu estava começando me sentir individualista, e isso me destruía por dentro, mas era o que eu tinha que fazer, nada pode mudar um destino a não ser a própria pessoa, e eu não poderia abandonar a minha vida por causa de minha irmã, mesmo que eu quisesse e muito.
 
          Quando eu cheguei ao King George’s Park, Danielle estava me esperando, mas não estava sozinha, Lincoln, o pianista estava com ela, bem, é aonde as minhas dúvidas começavam, me aproximei pensando no que iria acontecer, enquanto isso eu continuava pensando na minha irmã, mas não olhei para trás, continuei andando e visualizando apenas os dois que estavam a minha espera.
          - Ei! – Danielle disse. – Venha rápido, não temos o tempo todo.
          - Desculpe. – Retruquei rapidamente, começando a caminhar ao lado dos dois.
          Não fazia sentido nenhum eles juntos. Pensei que não se conheciam, mas me lembrei que foi ele o seletor das garotas pelo mundo inteiro, então comecei a desconfiar de que eles tinham alguma coisa, mas essa ideia passou rapidamente quando outro rapaz chegou, seu nome era Christian, mas ela o chamou por “Chris”, deixando de lado a formosura, correu em direção a ele e praticamente se jogou em seus braços, Lincoln assim como eu apenas assistiu, ela trocou algumas palavras com o namorado, nada importante porém revelador:
          - Encontrei uma garota que pode ser nossa bailarina. – Ela disse em uma tonalidade suficiente para eu escutar, porém depois sussurrando tornou a dizer. – Só precisa arrumar algumas coisas, mas ela tem talento.
          Depois de caminhar por um bom tempo, chegamos enfim a uma boate, onde tinham mulheres vulgares dançando sobre os balcões apenas vestidas com lingeries, luzes piscando, e o mais importante, havia um camarote, e para lá que nós fomos, subimos algumas escadas, o segurança tirou uma fita vermelha do meio da passagem, continuamos subindo e subindo até chegar no topo do local, em um assoalho que permitia a observação de tudo o que acontecia, as pessoas dançando, as prostitutas ganhando seus clientes, os loucos se drogando e etc... O mais legal, era que eu estava em um lugar privilegiado, o que as garotas do ENB diriam agora? Eu poderia permitir a inveja para elas, mas só eu naquela companhia tinha o apoio de uma das melhores bailarinas do mundo, uma que dançava apenas por total satisfação pessoal.
          Lincoln não tirava os olhos de mim, parecia tentar me mandar indiretas pelo olhar, mas eu sabia que ele era definitivamente muito velho, não que já estivesse caindo aos pedaços, porém, eu ainda era muito nova, estava querendo curtir a vida com homens bem mais jovens, como por exemplo aquele Christian, o namorado de Danielle, eu precisava de um belo rapaz como aquele.
          - Vocês namoram há quanto tempo? – Gritei tentando camuflar um pouco o efeito da música sobre nossos ouvidos.
          - Desde crianças. – Ela respondeu. – Desde a época que pra mim um pão por dia era o maior prêmio do mundo, e agora eu estou aqui, querida, as coisas são minhas, sem serem minhas.
          Terminando de citar sua frase, deu outro longo beijo em Chris, nem imaginando que o dia estava se tornando noite, apesar de que dentro daquele complexo tudo parecia estar de noite, na verdade eu nem sabia que esse tipo de coisa acontecia pela tarde, baladas, e tudo mais, deve ser uma característica de Londres, ou talvez uma característica daquele local.
          Quando a noite chegou, nós saímos do local e fomos andar pela cidade, tínhamos bebido apenas alguns refrigerantes já que nenhum de nós tinha o habito de “encher a cara” até não poder mais sustentar o próprio peso. Entramos em um sedan de luxo preto, era o carro de Danielle, ela começou a dirigir, Chris estava ao seu lado, e Lincoln ficou junto a mim, me observava mais do que uma criança observa seu doce preferido ao entrar em um mercado ou loja do tipo, mas não era só isso, ele sorria, e eu não sabia se isso era um sinal bom.
          De maneira ou outra, quando Danielle disse para Christian: “Encontrei uma garota que pode ser a nossa bailarina”, eu criei muitas situações diferentes em minha mente, umas delas era a qual estava acontecendo, quando notei estávamos entrando em um estúdio de ballet, não reformulado, sem nome, sem nada, era apenas um espaço vazio, com um piano um tanto quanto velho ao seu fundo, os espelhos não refletiam a nossa imagem com perfeição, e lá estava de novo os pontos interrogativos sobre minha cabeça, o que estava acontecendo?
          - Não se preocupe! – Disse Danielle sorrindo para mim. – Qual é o seu nome mesmo? Devo ter esquecido.
          - Meu nome é Júlia.
          - Bem vinda ao Kochitova ballet. – Ela disse dando algumas gargalhadas. – Se prepare porque aqui criaremos artes que ninguém criou antes.
          Christian ligou toda a aparelhagem de luz, todas aquelas luminárias ligando em seguida quase me segaram, mas agora eu conseguia ver tudo com mais perfeição, então era o plano de Danielle, abrir uma companhia particular de ballet, onde a criatividade dela superaria talvez a dos coreógrafos do Kirov, Bolshoi ou Royal?! Ótimo plano, eu realmente havia adorado a ideia, mas ainda não sabia o porquê tinha sido eu a escolhida por ela.
          - N-não! Espera um pouco. – Eu disse totalmente destrambelhada. – Não estou pronta para isso, nem em níveis técnicos ou criativos, você sabe disso, você viu.
          - Lincoln! – Ela gritou. – Vamos ter que criar a nossa bailarina, ela não confia em seu próprio potencial.
          Depois de falar isso, virou-se para mim e segurou em meus ombros me empurrando contra a parede, bati minhas costas com força, e ela olhava fixamente, pensei que Danielle iria me matar naquele momento, mas apenas disse com muita clareza:
          - Se não acredita em sua própria criatividade, então qual foi o motivo de entrar no local que eu estava? De dividir o círculo comigo? Eu sei que não me conhecia, mas com certeza notou que eu era a melhor dali, e me enfrentou, qual é o seu problema afinal?
          Eu não tinha argumentos suficientes para respondê-la, e eu não poderia dizer que tudo isso era fruto de minha insegurança, ou então ela não confiaria mais em mim, ou no que eu poderia produzir para ela, eu só sabia que eu havia aprendido uma lição: Nunca abrir a boca enquanto as coisas estão dando certo para você, não faz sentido algum fazer isso, se pode te prejudicar futuramente. Danielle confiava em mim justamente pelo motivo de eu ter tomado uma iniciativa de tentar tirá-la daquele círculo, mas isso poderia mudar se ela percebesse que minha iniciativa havia sido compulsiva, e não uma decisão concreta, mesmo que eu estivesse segura no memento, quem me conhece poderia dizer, que fui impulsiva, e não pensei no que estava fazendo.
          - Me desculpe, eu vou tentar ser mais profissional. – Respondi.
          - Então comece mostrando para todas aquelas garotas do English National Ballet, que elas não são nada.
          Ela virou as costas para mim, deu um sinal para Lincoln começar a tocar, era uma música lenta, então Christian apareceu do nada e começou um pás-de-deux com ela, o rapaz dançava melhor do que tudo que eu havia visto, ela havia escolhido bem o seu parceiro, mesmo que não fossem namorados, havia uma magia de combinação perfeita no par, era o que mais me impressionava e me deixava ansiosa para descobrir o que viria depois. [...]

Um Comentário

  1. Que blog maravilhoso, AMEI!!!
    Sou apaixonada por leitura.
    Parabéns.Deixo o blog Belas Artes Médicas .Abraço.

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