Quando me dei conta de tudo o que estava fazendo em Londres, percebi o meu verdadeiro problema, eu ignorei minha família, e eu não era uma pessoa de fazer isso, essa estava sendo a primeira vez, e estava doendo muito porque não há sentido algum deixar para lá sua irmã mais nova, doente, por causa de sua carreira.
          Talvez você tivesse que fazer alguns sacrifícios, todos têm que fazer sacrifícios se quiserem subir na vida, mas decidi que o que eu estava fazendo, estava realmente errado.
          Após os treinos no ENB terminarem, eu tinha um curto intervalo de tempo até partir para o estúdio onde Danielle, Lincoln e Christian se reuniam, então foi o tempo que eu comecei a aproveitar para falar com a minha irmã, e foi na primeira vez que eu tentei, que percebi o que eu estava fazendo com ela, sendo uma completa idiota.


          - Alô! – Ela disse atendendo.
          - Olha! Eu sei que você deve estar muito chateada comigo, eu sei que eu prometi falar todos os dias com você, mas eu andei muito ocupada e...
          Elisa me interrompeu antes que eu pudesse continuar a falar com ela, mas não me interrompeu falando alguma coisa, ela começou a chorar, e agora a minha preocupação ia além de tudo o que estava acontecendo a minha volta, o que eu poderia dizer a ela agora? Eu não sabia mais do que estava acontecendo, não sabia sobre o contexto que ela estava passando, então ficaria difícil tentar dizer algo, até que ela se sentisse segura para me dizer pelo o que estava passando.
          - O que está acontecendo Elisa? Conte para sua irmã, por favor...
          - Muitas coisas estão acontecendo Júlia, se você fosse mais próxima como prometeu, eu não precisaria estar falando essas coisas, eu fiquei doente novamente, e você sabe que nosso pai não serve para nada.
          Eu nunca tinha visto a garota falar assim do próprio pai, é claro que era verdade, o problema é o que levou ela a descobrir isso, o que levou ela a começar entender tudo isso? Será que ele havia feito alguma coisa que tivesse deixado ela chateada de forma absurda? O que ele havia feito? Bem, minha cabeça funciona desse jeito, todos sabem, eu começo imaginar todas as situações possíveis pelas minhas dúvidas, mas no fim sempre acabo agindo sem pensar, é uma loucura constante dentro de mim, e agora eu precisava descobrir o que realmente estava acontecendo com minha irmã.
          - Lis, eu posso deixar de comparecer hoje no Estúdio para ficar conversando contigo. – Eu disse decidida. – Então, eu quero saber de tudo o que está acontecendo, vai contar para sua irmã?
          Ela ficou confusa no começo, e ficou dizendo muitas coisas que não consegui entender, mas no fim eu compreendi o que estava acontecendo. Meu pai estava ficando mais complicado e quando ficava nervoso descontava em qualquer coisa que estivesse perto, infelizmente ela estava perto quase em todas as situações e assim tudo sobrava para a doce menina. Layla provavelmente estava ajudando bastante minha irmã, mas talvez não bastasse, talvez ele me quisesse mais do que tudo, mesmo que minha amiga fosse a minha representação física naquele local.
          Eu consegui no fim descobrir o que eu queria, entender a situação que minha irmã estava passando, e então eu pedi com toda misericórdia que Layla tentasse ajuda-la de forma ainda mais atenciosa, eu sabia que aquilo não era obrigação, na verdade ela não tinha nem estar ajudando, mas se ela pudesse fazer alguma coisa, eu ficaria eternamente agradecida.
          No fim não precisei faltar com a palavra, consegui ir para o Estúdio de Danielle, apesar de ter ido correndo, cheguei lá pronta e disposta a tentar fazer o que eles estavam pensando ou pediriam para me fazer. Quando entrei na sala, eles estavam sentados, havia outra garota junto com eles, eu não sabia seu nome, mas ela era muito bonita, loira com belos olhos claros, porém meus olhos ainda apontavam apenas para uma pessoa, era Lincoln, às vezes parecia que ele me fascinava além de todas as coisas, e ele também olhava para mim com outros olhos, não sei o porquê, mas eu tinha o pressentimento de que ele tinha algum interesse em mim.
          - Júlia, nós vamos tentar apresentar ao fim do ano uma peça de ballet, com história que está longe de qualquer pensamento do ballet.
          - Tudo bem! – Eu disse ao terminar de me trocar. – E você irá montar a coreografia até quando?
          Ela ficou estranha quando perguntei isso, ela não pediu para Lincoln ir tocar, coisa que eu achei estranho, mas trouxe um rádio e apertou o “play” para começar uma grande sequência de músicas.
          - Preste atenção, hoje você vai ouvir a trilha sonora enquanto eu tento explicar a história do que vamos reproduzir.
          A música começou a tocar e eu comecei prestar atenção ao máximo, muita qualidade clássica. Para ficar algo realmente bom precisaríamos dar duro em cima daquilo que estávamos querendo fazer, ou do que Danielle estava querendo fazer, meu único medo, era o que ela exigiria de mim deste momento para frente, eu não tinha a habilidade que ela queria, eu não sei o que ela viu em mim, se era força de vontade ou iniciativa, mas e dai? E se eu não conseguisse reproduzir com perfeição as coreografias que ela me passaria? E se eu não fosse capaz e ela tivesse cometido um grande erro? Era melhor nem tentar dividir essas dúvidas com ela, afinal eu ainda prezava a minha vida de qualquer forma.
          Ela fechou os olhos e todos que estavam ao redor dela fizeram o mesmo, depois eu percebi que eles estavam concentrados ao máximo na música, e foi o que eu tentei fazer, eu não sabia o que ela estava querendo, mas parecia que a imaginação de Danielle estava indo tão longe que chegava a me contagiar, e música continuava a tocar, e quando as trilhas trocavam eu sentia uma emoção diferente, eu comecei a me imaginar dançando e isso estava ficando cada vez mais interessante. 
          Ela começou a contar a história de forma bem calma e com uma voz bem leve, aquilo estava parecendo a “meditação dos dançarinos”, tudo bem, mais uma vez minhas dúvidas sobre a capacidade de fazer alguma coisa estava pesando em minha mente.
          - Um doce e justo guerreiro vê sua amada ser assassinada por alguns guerreiros, então ele, o portador da espada do Lord Emon, decide levar ela para o reino proibido...
          “Um local que nada poderia se encontrar, apenas grandes templos e locais colossais, montados não para seres humanos sobreviverem, mas sim para criaturas extremamente grandes, tais quais chamados colossos, estes precisariam ser derrotados pelo guerreiro para assim ele poder constituir a vida da garota morta, e mesmo que ele fizesse todos os esforços, sabia que depois de conseguir o feito, seria morto e traçado a uma grande maldição...”
          A história era muito boa, eu queria ver como Danielle iria reproduzi-la com perfeição e sem deixar descaracterizar, as músicas, a arte tudo que estava englobado dentro deste contexto, e quando descobri de onde havia saído aquela história, quase não acreditei, do mundo dos “games”.
          Mais uma vez dentro do quarto de hotel, liguei para Layla, para ter uma conversa séria e particular, porém ela não estava no momento, fiquei chateada, as pessoas não estavam em todo momento a minha disposição, e eu não estava mais a disposição de todos em todos os momentos, será que então a única coisa a fazer era esperar o afastamento de todos os que me amavam mas agora estavam longe de mim?
          Não sei, eu estava apenas tentando entender toda a minha vida em pouco tempo, o importante é que as coisas pareciam estar dando o mais certo possível, e eu estava ansiosa para começar a ganhar o meu dinheiro, eu já daria alguma ajuda para minha irmã, e se tudo estivesse estabilizado, quem sabe trazê-la para morar comigo? De qualquer jeito, eu, como sempre estava apenas esperando o que viria pela frente, mas agora é claro, bem mais focada também no que eu havia esquecido, minha família, minha irmã, minha vida que eu não poderia deixar para trás.  

3 Comentários

  1. Linda a capa do livro!
    Li esse capítulo lembrando de Cisne Negro =p

    =)

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  2. Que imagem linda essa! Simplesmente AMO ballet, e quando vejo coisas relacionadas ao tema me bate aquela nostalgia... Estou há muitos meses sem minhas aulinhas, então só de ver um par de sapatilhas eu fico toda sensível...
    Ótimo post!

    Bjs,
    escrevendoloucamente.blogspot.com

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  3. Achei a capa linda, o texto eu não acompanhei os anterios, mas gostei muito.

    bjos
    Nanda

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