A rotina em Londres já não era mais nova ou animadora, agora tudo havia chegado naquele ponto que você diz: “Que saco”, mesmo sendo o máximo para você. É como ir para um parque de diversões sozinho, você chega ao local e se diverte muito, mas sempre falta algo, faltam pessoas, faltam alguns amigos, e então você começa perceber que está definitivamente jogado em um oceano, onde seus verdadeiros amigos não podem ser vistos ou ouvidos, isso começa te enjoar e foi justamente isso que aconteceu comigo, pois para mim estar em outro país era como se fosse uma vida diferente, tinha em mente levar uma vida diferente, mas a rotina nunca foge de nós, somos seres rotineiros o que nos torna insuportavelmente acomodados as nossas situações.
          Desta vez a proposta da coreógrafa do ENB foi realmente diferente, ela queria classificar o corpo de baile em diferentes tipos, não era comum diferenciar as meninas do corpo, já que só por estarem ali, já dá para perceber que não são garotas solistas, muito menos a principal, como Danielle, que já estava com este posto em menos de 1 mês da chegada. Mas a coreógrafa quis nos classificar de uma forma que eu sinceramente odiei, pois essa classificação marcou a minha vida de forma que nenhuma outra havia marcado antes, e se acham que foi para o modo positivo estão enganados, realmente foi para o negativismo, e tenho repulsa dessa época.
          - A temporada irá começar e não podemos deixar para trás nenhuma garota, mas podemos então saber quem fica na frente e quem fica atrás. – Disse a velha ranzinza. – O corpo de baile tem garotas suficientes para serem classificadas em diferentes formas, e por isso, vamos classifica-las como merecem.
          Ela deu uma proposta que eu já não gostei muito de início, mesmo depois de Danielle ter me ajudado diante de todas as garotas, elas continuavam ter repulsa de mim, e me viam como uma garota  ainda muito fraca, já estava na hora de paparem com isso, estava virando mais um preconceito de onde eu vim, do que a realidade, afinal eu era melhor do que muitas que estavam ali me criticando. A proposta dela se baseava em duas coisas, definir a bailarina em comparação a um animal, dependendo de sua perfeição, leveza e postura, o que já me deixava preocupada, eu acabaria me dando mal nessa, eu estava sentindo, mas tudo bem, eu tinha que acatar ordens duras, afinal eu era a menor hierarquia.
          - Lincoln por favor, eu quero uma sinfonia de Mozart, andante.
          Lincoln começou a tocar, como sempre perfeitamente, mas agora já havia fugido daquelas músicas clássicas mais agressivas, agora sim entramos no clássico completo, mas minhas pernas ainda tremiam, o que eu poderia fazer? Ainda era muito fraca psicologicamente, mas eu tinha que enfrentar os meus medos, e o meu maior problema é que às vezes eu não aceitava isso.
          Diante de todas as garotas, algumas começaram a tomar a iniciativa de dançar, porque a ENB estava querendo apenas criatividade das garotas? Como avaliar a execução se o que está sendo criado é novo? Mais uma vez, perguntas que não importam mas que ficavam rodeando a minha cabeça de forma mortal, então a primeira garota havia terminado a sua dança, e a coreógrafa disse:
          - Leão, mantém a postura, busca ser diferente, não é tão leve, mas tem um grande potencial. Mantenha Lincoln.
          E assim foi, com todas as outras garotas que estavam na sala, definições que agora até pareciam fazer um pouco de sentido, pena que as solistas não participaram dessa, ela iria ter que classificar muitos pássaros diferentes. Minha vez foi assustadora, eu comecei a dançar, mas fora eu estar com muito frio naquele dia, ainda estava com medo de ser classificada por um animal ruim, haviam garotas que tinham levado nomes de cobras, por não saberem usar os braços, significava que era a mesma coisa de que não tivessem braços.
          Antes de eu terminar a minha dança, comecei entender o verdadeiro propósito de tudo isso, saber de todas as suas garotas é um problema você as vê como um grupo, por isso ela estava fazendo aquela coisa, porque precisava saber a individualidade de cada garota, quem tem e quem não tem potencial, e isso ajudaria também no desenvolvimento de cada uma, já que as próprias saberiam onde estavam errando e onde precisavam melhorar, e pensando tudo isso, eu acabei deixando de alcançar a minha melhor forma, principalmente quando percebi que Danielle estava me assistindo pela pequena janela de vidro que havia na porta, endureci por completa, e assim finalizei para não ficar pior.
          - Gostei da sua dança menina, é realmente boa, mas tem apenas um problema, você precisa aprender a se soltar e a se movimentar sobre o palco, precisa sair do mesmo quadrado, não é mesmo?
          Eu, completamente suada, cansada, e com raiva, apenas balancei a cabeça afirmativamente para  levar isso para frente, eu nem considerei se o que ela estava me dizendo era certo ou errado, eu só sabia que eu precisava descansar logo e que outra garota tinha que começar a dançar, eu não gostava de ter as atenções viradas para mim, não quando eu não tinha qualidade o suficiente para mostrar quem eu era, na escola eu conseguia, mas neste lugar, estava mais para um zero a esquerda.
          - Libélula! – Ela disse. – Demorei a achar uma comparação que te definisse, mas agora eu já tenho. Move-se muito bem e com uma ótima frequência, porém não consegue sair do lugar mesmo que se esforce, é uma garota totalmente parada, perfeito.
          Realmente, perfeito, Libélula? O que era isso afinal? Tudo bem, eu já tinha visto, mas achei que eu poderia ser definida negativamente com o que as outras também foram. Não seria o correto? Por que me dar uma definição específica? Ninguém havia ganhado definição específica, apenas eu, a tonta que não conseguia se mover no palco, incapacitada de sair de um lado e ir para o outro, meu Deus, o que eu precisava fazer? Eu me esforçava, com todas as minhas forças, mas nunca conseguia fazer nada certo, talvez eu realmente não fosse a bailarina certa para estar dentro de uma companhia renomada, talvez fosse melhor eu desistir do ballet, e meus pensamentos começaram a me perturbar tanto, que precisei ir ao banheiro e jogar água em meu rosto, para ver se eu conseguia parar de pensar.
          Liguei para Layla, expliquei tudo o que estava acontecendo e como eu estava me sentindo, ela entendeu a minha situação, e disse que eu precisava aprender a ser um pouco menos refletiva, disse que essa era a minha virtude mas que também era o meu maior defeito, eu sabia refletir sobre as coisas, mas às vezes coisas que não precisavam de reflexão ficavam rondando a minha cabeça por esse instinto, ou seja, eu precisava pensar menos e tentar fazer mais.
          - Eu vou tentar ser melhor Layla, eu só tenho dificuldades, mas nós sempre superamos juntas, certo? Eu queria que você estivesse aqui.
          - Pois é Júlia, mas eu não estou. – Ela retrucou. – E você terá que aprender a ser uma pessoa controlada sem mim, terá que fazer uma nova grande amizade dentro do local onde você está, se libertar do seu passado, infelizmente é assim que as coisas acontecem.  
          - Layla, vocês não são o meu passado, vocês são a minha vida! Você e minha irmã, eu nunca irei esquecê-las por nada, mas vou tentar me entreter melhor com as pessoas daqui, o que será difícil depois do que houve.
          Ao final de mais um dia de rotina dentro da companhia, fui para o hotel, entrei e me joguei na cama, eu poderia descansar um pouco antes de ir para o estúdio de Danielle, mas a grande questão era que antes de eu sair, as garotas caçoaram muito de mim, agora libélula não era apenas a minha definição no ballet, havia tornado o meu apelido, talvez o meu novo nome e era assim que as garotas começaram a me conhecer, como a menina que batia as asas, mas não conseguia sair do lugar. Eu entendi o ponto positivo nessa história, mas diante de tanta negatividade, quem olha para o lado bom das coisas? É quase impossível, na verdade você já procura o negativo dentro dos que estão ao seu redor, principalmente se você parar para pensar que lá dentro, acontece a maior disputa de todas as profissões, lá dentro você tem garotas que são todas de grande qualidade, tentando passar por cima uma da outra, sem dó e sem olhar para trás, para chegar aonde Danielle chegou com facilidade, e todas ali torcem para que aconteça algo leve ou grave contigo, mesmo que digam que aquilo seja um absurdo, e que não desejam mal a ninguém. 

Deixe um comentário

Comentários ofensivos e/ou preconceituosos não serão aceitos.

Obrigado por visitar e comentar.