Algumas semanas se passaram desde que comecei a treinar junto com Danielle, ela reuniu mais alguns bailarinos da companhia e outros que estavam fora de cena rondando pelo mundo procurando trabalho, e além de parecerem bailarinos comuns, ela jurava que eram os melhores que ela já havia visto, apenas precisavam retornar aos toques que tinham quando eram os principais das grandes companhias.
          Os principais bailarinos dela eram: Amber, uma garota extremamente comum em relação à beleza, mas completamente habilidosa na dança, fazia um belo par com Christian e com as outras três garotas, Eva, Caroline e Chantal. A evolução em mim começava a ser notada dentro do ENB, e Lincoln não parava de olhar para mim, eu estava começando perceber algo realmente estranho há algum tempo, mas nunca quis colocar fichas que ele estivesse apaixonado por mim.
          Eu nunca imaginei que isso pudesse acontecer, mas depois de um dos treinos no estúdio de Danielle, ele me chamou para tomar um cappuccino em um bar que ele adorava, um bar que tinha algumas apresentações e shows de rock clássico. Eu aceitei em minha inocência, sem problemas nenhum, afinal já era sexta-feira, e eu passaria o dia seguinte apenas descansando, já que era o meu grande dia livre.
          Quando estávamos assistindo ao show, ele começou a se aproximar de mim, conversamos de várias coisas até eu notar que ele realmente estava interessado em minha pessoa Foi uma grande surpresa, afinal, o que um rapaz veria em mim? Uma garota complicada e insegura de seus próprios desejos? Eu sabia que essa história acabaria mal, e por isso tentei não alimentar a ideia de que ele fosse um homem charmoso, bonito, educado e admirável, experiente e fora isso, ele era um pianista e agente excelente de ballet.
          - E então, ainda não me respondeu o motivo de uma garota tão bonita e dócil não estar com ninguém...
          - B-bem, e-eu... Eu não sei! – Respondi desajustada. – Talvez, porque eu tenha dado mais importância aos meus sonhos.


          Ou talvez porque ninguém gostasse de mim, era o que eu realmente queria dizer, mas tentei ser mais apreensiva comigo mesma, afinal, se ele estava ali tão interessado, eu não era de se jogar fora. Verdade, nesse momento eu comecei a lembrar dos tempos da escola, na escola eu sempre fui uma das garotas mais desejadas, e minha beleza nunca foi dispensável, alias eu era considerada a garota mais bonita, então realmente, por quê uma garota com eu, estava sozinha? A resposta certa foi:
          - Eu tenho um palpite. – Ele disse. – Talvez, você seja tão insegura em relação a todas as coisas, que acha que não pode manter uma boa relação com ninguém. Porém eu tenho certeza de que você pode, e pode mesmo.
          De repente uma música lenta começou a tocar, me lembrou uma daquelas cenas de filme que os homens interessados chamam a garota para dançar, e ela nega, pois não sabe dançar e não quer parecer um fiasco, pois foi isso o que aconteceu, porém a insistência cinematográfica dele não me levou a pista de forma alguma.
          Depois de alguns minutos naquela enrolação de sempre, ele segurou meu braço e me conduziu para fora do bar, entrou em seu carro, eu entrei em seu lado, e então começamos ir em direção a um lugar muito mais calmo, a porta de do hotel onde eu estava hospedada, lá ele me falou muitas coisas, do tipo:
          -... Não consegui retirar os olhos de você desde quando eu te conheci, apesar de eu notar a sua repulsa pela minha idade.
          - Não! Não! – Eu disse mais uma vez desajustada. – Isso não tem nada com a sua idade, é só que, eu não sei, sabe... E-eu, simplesmente não sei.
          - Tudo bem, pode ficar tranquila, eu entendo que você esteja se sentindo nervosa, afinal, ainda são novas ideias pra você, mas nós podemos tentar nos ver qualquer dia.
          No fim de sua frase, ele se aproximou de mim, e colocou sua face perto da minha, eu não queria beijá-lo naquele momento, mas fiquei tão vulnerável que acabei o fazendo, e depois quando me dei conta da situação, me afastei imediatamente, e ele fez o mesmo, como se estivesse impressionado com a cena que estava acontecendo.
          Antes que ele pudesse pedir perdão, eu dei as costas e subi as escadas do hotel, corri para o meu quarto e fechei a porta, jurei mil vezes que não iria abri-la para ninguém, e não foi necessário, pois ninguém tocou nela no decorrer de toda a noite.
          Na manhã seguinte, meu stress em geral já havia passado, eu treinei alguns passos ao lado de minha cama, fiz alguns alongamentos para não deixar meu corpo totalmente quebrado para segunda-feira, e depois pulei novamente na cama, liguei a TV, mas logo adormeci. Mais tarde, quando fui tomar o meu café da manhã, fiquei imaginando como seria um romance entre eu e o Lincoln, teoricamente impossível, um homem com aquela formação profissional, com aquela categoria e tipos de pensamento, com uma garota que não tem onde cair morta, e acima de tudo esta vivendo a custa do próprio?
          Tudo o que eu precisava de verdade, era um verdadeiro tempo no telefone com uma garota chamada Layla, eu sei que ela ficaria me dizendo que eu enfim havia encontrado alguém na minha vida, e que eu deveria tomar as decisões corretas, que no caso seria ficar com ele, tentar manter uma relação estável em minha vida, ter alguém importante na Inglaterra, mas mesmo assim, eu ainda estava com minhas dúvidas.
          Às vezes uma melhor amiga sabe exatamente o que é melhor pra você, e você sabe disso, mas a sensação superior é a sensação da dúvida, e de que de repente tudo que está dando certo neste momento, pode começar a dar errado no momento seguinte, e por isso deixamos de arriscar tantas coisas que a vida nos oferece, mas a verdade é que temos que aproveitar esses momentos bons a risca, pois depois que eles passarem, talvez nunca mais voltem, e então você pode se tornar uma pessoa completamente infeliz e sozinha, coisa que eu não estava querendo me tornar no momento, e só para constar, quem me disse todas essas coisas foi a Layla, ajudando-me bastante a decidir entre estar com Lincoln ou não.
          E além de tudo, eu era uma garota muito bem instruída e já tinha idade suficiente para decidir o que era melhor para mim, e se tudo desse errado, qual era o problema? Eu não era mais criança, eu daria um fim em tudo e depois continuaria com a minha vida sendo extremamente profissional, e falando em ser profissional, comecei a imaginar como seria a reação de Danielle, o que ela diria sobre uma relação que nasce dentro de uma instituição educativa e construtiva como o ballet? Talvez ela já fosse contra a relação entre funcionários, apesar de não sermos funcionários, mas estarmos ligados a um conjunto liderado por ela, que futuramente poderíamos muito bem ser.
          Algum tempo se passou naquela tarde, e eu decidi ligar para Lincoln, fiquei com medo, parecendo uma adolescente de 15 anos em crise, mas apesar de tudo, eu ainda era muito nova, e aos 17 muitas vezes não se sabe o que fazer em situações como essa, afinal quantos anos ele tinha mesmo? Em vários momentos eu não conseguia me lembrar, mas eu tinha certeza que havia mais de 10 anos de diferença, e isso que me deixava um tanto chateada, eu poderia satisfazê-lo fisicamente, isto é evidente, porém e nos ideais? Eu não tinha capacidade suficiente para satisfazer alguém de minha idade, e por isso desliguei o celular várias vezes antes que ele pudesse atender.
          No final das contas, consegui falar com ele, e tudo estava perfeito, ele me dizendo frases bonitas, de antigos conquistadores, eu caindo na dele, é claro, como qualquer garota cairia diante de minha situação, e eu não pude resistir aos seus convites, fiquei extremamente feliz em dar início a uma relação.
          - Então nos veremos hoje à noite? Está ótimo para mim. – Ele disse dando algumas risadas. – Vejo que você refletiu e tirou suas dúvidas, e eu sabia que você tomaria a melhor decisão, afinal somos nós.
          Quando eu desliguei o celular, liguei diretamente para Layla, e conversamos sobre todas as possibilidades das coisas que poderiam acontecer deste momento em diante, felizmente tivemos reações muito positivas, eu estava ansiosa, e ele estava afoito, talvez fosse a melhor coisa a fazer. 

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