Brasil, um país do qual eu já havia me arrependido de ter nascido por milhares de vezes, e além do mais, o país que eu estava prestes a perder mais alguém de minha família. Tudo bem que meu pai não tinha tanta importância na minha vida pessoal, às vezes eu exagerava em demonstrar meus sentimentos, mas minha preocupação, como eu já devo ter citado, sempre foi com o que minha irmã sentiria.
          A chegada foi comum, Layla estava me esperando no aeroporto, junto de minha irmã Elisa. Ambas abriram um grande sorriso ao me avistar, o que me deixou um pouco mais feliz, pois pelo menos ali, eu estava sendo querida por alguém, já em Londres, as únicas pessoas que eu tinha além de Lincoln era Gabrielle.
          - AAAH! – Layla gritou correndo em minha direção. – JÚLIA!!!
          Após o grito, ela me deu um forte abraço, e minha irmã fez o mesmo, e apesar do segundo, percebi que ela estava com uma cara de choro, o que também estava entristecendo a minha melhor amiga de alguma forma, afinal ela era minha irmã de certa forma, e assim, também tinha essa forte relação de sentimento com Elisa.
        

  - Bem, essas devem ser Layla e Elisa. – Lincoln disse as observando. – É um prazer conhecê-las, Júlia fala muito de vocês.
          - Eu duvido que fale tanto. Afinal ela nos esqueceu. – Elisa completou querendo jogar um pouco de veneno na conversa.
          - Aposto que esta enganada. – Lincoln retrucou. – Afinal ela está aqui não está?! Pois é, isso significa que ela nunca esquecerá vocês.
          Do aeroporto pegamos um taxi e assim partimos para a minha antiga casa, ou minha casa, eu não sabia mais como chamar, afinal, eu não me sentia tão familiarizada assim. Porém, quando abrimos a porta e sentei-me sobre o sofá que sempre sentei, dormi, passei momentos bons e ruins, nunca me senti mais em casa do que nunca.
          Tocando as paredes, andando alguns minutos sobre o chão, comecei a sentir que ali era o meu verdadeiro lar, e quase me emocionei quando as lembranças do passado começaram a tomar a minha cabeça, mas logo todas as minhas preocupações com o presente voltaram, afinal, eu estava ali por um problema, e não simplesmente por vontade.         
          É claro que ver minha irmã e Layla estava sendo uma coisa muito boa, mas eu só pretendia fazer isso ao fim do ano, quando entrássemos em recesso para o natal e ano novo. Mesmo assim, agora não havia nada que eu pudesse fazer, a não ser descansar da viagem, para mais tarde ou no dia seguinte, ir visitar o meu pai com minha irmã.
          Me deitei com o objetivo de descansar, Lincoln deitou-se comigo e me abraçou, me senti extremamente confortável, eu estava feliz apesar de tudo, então agora eu estava decidida, só iria para o hospital no próximo dia.
          Como eu não queria que minha irmã se sentisse sozinha já que eu estava ali, pedi para Lincoln dormir no quarto de meu pai, e assim eu dormi com ela em sua cama. Pedi também para Layla dormir em casa, apenas para fazer mais companhia, assim eu ficaria mais confortável, em um lugar que eu não visitava há tanto tempo.
          Layla como sempre concordava com todas as minhas ideias, ela ficou no mesmo quarto que nós, se deitou sobre meu colchão enquanto eu estava na cama de minha irmã. De qualquer jeito, eu estava muito acomodada, apenas preocupada com Lincoln, pois talvez ele não estivesse, e de repente ele não estivesse gostando nada disso.
          No dia seguinte eu acordei tranquila, praticamente todos já estavam acordados, menos Lincoln que deveria estar confuso com o fuso horário. Foi aí que notei que para mim quase não fez diferença, talvez a condição gravada em minha memória conseguiu entender bem o local que eu estava, ou talvez não tivesse nada a ver com isso e eu estivesse apenas cansada.
          Tomei meu café da manhã, e fui até Lincoln avisá-lo que estaríamos partindo logo, depois tomei um banho e me troquei. Lincoln ficou pronto muito rápido o que facilitou a nossa saída para o hospital, mas nada precisava mais ser feito. De manhã Layla me dera a notícia que meu pai provavelmente estava tendo seus últimos minutos de vida, por isso eu estava com pressa, queria que Elisa se despedisse dele, e tivesse a última chance de vê-lo com vida.
          Como o esperado, chegamos ao hospital e ele ainda estava vivo, eu estava triste por minha irmã, e Layla entrou no mesmo clima. Após chegarmos ao corredor, deixamos que minha irmã entrasse no quarto primeiro, talvez fosse a melhor opção, seria horrível ela ter ido até lá e não conseguir falar com ele.
          Descobrimos que nas horas mais difíceis, toda a família pode se reunir dentro da sala, mesmo que o limite seja um acompanhante, os médicos e enfermeiros sabem que todos querem dizer “adeus” de forma ou outra e foi assim que aconteceu. Recordo completamente das últimas palavras de meu pai, que foram:
          “Eu sei que eu não fui o pai que vocês merecem, na verdade eu fui um pai horrível. Depois que sua mãe nos deixou, eu perdi a noção das coisas e entrei em mundos que eu não deveria ter entrado. O mais importante, é que vocês estão seguindo o caminho certo, principalmente você agora, Júlia. Correndo atrás de seus sonhos, faça isso, e assim conseguirá ser diferente de um fracassado como eu. Me desculpe por fazê-la vir até aqui, você deveria ter coisas muito mais importantes pra fazer, e apesar de tudo sei que veio por Elisa, mas a vida não se resume apenas em sua família, se resume também no particular, eu quero que você prossiga com todos os seus objetivos, e nunca mude, e assim espero que Elisa também o faça. Layla, a melhor amiga de minha filha... Parece que eu não deveria dizer nada para você, mas a verdade é que, você foi mais prestativa para minha filha mais nova, do que eu mesmo. Você foi como uma verdadeira irmã, dando todo o apoio necessário, eu espero que todos vocês sejam muito felizes e espero que este seu namorado Júlia, seja um ótimo rapaz, ou então eu volto para atormentá-lo... Olha só pra isso, ele parece ter a minha idade, é tarde para dizer mas cuidado com suas escolhas. Eu amo todos vocês, e não espero que me amem também, sejam o que eu não consegui ser, sejam, verdadeiramente felizes...”
            - Eu te amo, pai. – Elisa disse dando-lhe um beijo. – Desculpe por ter levado minha mãe de você, a culpa é minha, eu sei disso.
          Meu pai não teve como responder, antes que ele pudesse esboçar qualquer reação, a morte o levou. Minha irmã começou a chorar, e sucessivamente eu chorei por ela, Layla a abraçou e assim conseguiu fazê-la ficar um pouco melhor, algo que talvez eu não conseguisse mais, pela falta de intimidade que foi se criando naturalmente com todo o tempo que passei distante.
          Eu teria que aproveitar ao máximo o tempo que eu estava passando com minha irmã, mas eu ainda não conseguia, eu estava vendo mais relação entre minha melhor amiga e ela, do que entre nós duas. O grande problema de tudo isso era simples: E agora, o que eu faria? Levaria Elisa comigo para Londres? Seria definitivamente complicado, já que eu não sei se eu poderia, antes de completar meus 18 anos.
          Descobri que meu pai não poderia ser enterrado sem uma autorização de um maior de idade da família, mas não havia ninguém, este era o problema, meus pais não tinham irmãos e os avós morreram, então tive que passar alguns dias a mais que o planejado no Brasil, o que foi proveitoso, pois ganhei emancipação, assim ganhando a guarda de minha irmã e vários direitos, o que me permitiu pensar em colocar a casa a venda, o que poderia me trazer um bom dinheiro para me preparar para comprar minha futura casa ao apartamento em Londres.
          Meus últimos dias no Brasil estavam chegando, e tudo que eu queria era aproveitar a vida do lado de minha melhor amiga, já que agora eu teria certeza que levaria minha irmã embora. Eu pensei muito em convidar Layla para vir conosco, mas provavelmente não seria viável para ela, já que tinha muitas coisas para resolver aqui, inclusive a dança, ela ganhava para dançar, e não iria deixar seu trabalho para morar de graça na casa de uma amiga. Apesar de tudo, fiquei muito triste em saber que nada mais me ligaria a ela, e que assim poderíamos perder contato, por isso prometi que visitaria o Brasil pelo menos uma vez a cada dois meses. 

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