De volta a Londres, a cidade onde todas as coisas aconteciam, Elisa acordou pela primeira vez no hotel e ficou louca para passear na cidade, infelizmente eu não poderia leva-la, ela teria que se contentar em ficar olhando o local pela janela por um tempo, meus compromissos haviam voltado ao normal, me troquei como sempre, dei um leve beijo nela e parti para o ENB esperando que tudo estivesse perfeitamente como antes.
          Chegando lá percebi que algo tinha mudado, afinal onde estavam todas as garotas que participavam do corpo de baile? A companhia estava definitivamente vazia, vi apenas as solistas e protagonistas treinando, sem ter nenhuma informação do que estava havendo, fui até a secretaria com o objetivo de sair mais informada da história.
          - Onde estão as garotas do corpo?
          - Como pode ver, não estão aqui. Nessa semana não vão estar na companhia, partiram com grande parte da companhia para pequenas apresentações em outros estados.
          - Mas porque as solistas e principais estão aqui? –Perguntei confusa sobre o motivo de a companhia ter levado apenas as bailarinas comuns.
          - Pergunte para elas, com certeza vai obter uma resposta.
          Ignorando a incrível arrogância da recepcionista, parti em direção as salas onde estava o que sobrara das meninas. Olhando nelas, não achei Danielle, fiquei preocupada então tentei ligar no celular dela, foram três tentativas frustrantes, a única mensagem que eu conseguia ouvir era: “Este telefone está desligado ou fora de área de serviço”.
          Procurei Lincoln, ele já estava na companhia, era uma das pessoas que chegavam mais cedo lá e atrás de seu piano lia as partituras as reproduzindo com total exatidão, tive que atrapalhá-lo por um tempo, mesmo assim suas mãos não perderam a classe, as notas serviam apenas para se ter certeza, pois as músicas já estavam há tempos em sua cabeça.
          - Lincoln, onde estão as garotas, onde está Danielle?
          - Elas estão em Manchester, é uma pequena turnê pelo Reino Unido, da qual você participaria se estivesse aqui antes. Dani abriu sua própria companhia, acredite, ela já tem quase cem bailarinas de qualidade.
          Impressionada com a notícia, não falei com ele sobre nada, apenas lhe dei um beijo, tal ato deixou as garotas que estavam dançando perplexas, mas eu não me importei, continuei seguindo o meu caminho, sem olhar para os lados, coisa que as deixavam irritadas, não ter atenção das garotas tecnicamente inferiores.
          Cheguei o mais rápido que pude no antigo estúdio onde Danielle dançava e criava todas as coreografias, onde ela me pressionou como louca antes da ida para o Brasil. Lá, eu não encontrei nada do que eu queria, estava fechado e não parecia estar com sinais de vida muito recentes, demonstrava estar abandonado, o chão com algumas elevações defeituosas e os espelhos riscados, a única coisa que estava mantida no salão com perfeição era o piano que Lincoln tocava, me aproximei dele encontrando uma pequena folha no local das partituras, era um bilhete direcionado para mim:
          “Júlia, você ficou longe muito tempo, mas eu sabia que quando você chegasse este seria o primeiro lugar que iria me procurar, isto porque Lincoln não lhe informou o local de minha companhia, pois ele não sabe, não pude inclui-lo em tal plano se ele quisesse continuar sendo pianista do ENB. A propósito meu novo número de celular está no verso do bilhete, peça demissão em sua companhia e me procure, não tenha medo, aqui receberá mais e alcançará sua melhor forma”.
          Claro que eu não poderia simplesmente chegar no ENB e dizer que eu estava fora, mesmo que eu confiasse 100% em minha única amiga verdadeira da Inglaterra, eu tinha que pensar em algumas coisas, por que ela descartou Lincoln? E por que ele não quis dizer nada para mim? Poderia ter sido um motivo sério, isso me dava mais e mais receios, por tal motivo liguei para ela antes de fazer qualquer coisa.
          - Quem é? – Ela perguntou atendendo.
          - É a Júlia, onde você está?
          - Fique em frente ao meu antigo estúdio, vou mandar um táxi te buscar, sabe que mudei de planos e fundei uma companhia o mais rápido que pude, mas aqui é o lugar que você vai se encontrar, acredite.
          Sem mais palavras ela desligou o telefone, passado alguns minutos o táxi do qual ela havia falado chegou em frente ao local, eu entrei e como sempre fiquei observando as coisas passarem, imaginando o quão diferente ficava minha vida a cada segundo, quando eu pensava que tudo estava organizado, algum detalhe sempre era acrescentado, pois então o que eu faria nessa situação? Será mesmo que o Ballet de Danielle me daria mais futuro do que estar em uma companhia famosa? Quem sabe tal local se torna-se ainda mais famoso do que todos os outros? Qualidade eu sabia que ela teria para organizar apresentações incríveis e superiores a qualquer outro lugar no planeta, mesmo assim meu medo era mantido.
          Chegando ao local, avistei um grande prédio, não tão grande, mas de um tamanho considerável em uma estrutura antiga, haviam alguns pedreiros trabalhando na parte de fora, procurei por algum sinal de vida, quando estava passando o olho pelo local, observei que na parte de cima da grande porta de entrada havia um letreiro grande escrito: “Kochitova Ballet”.
          As letras eram bronzeadas, criavam um grande contraste e simbolismo antigo. Entrei pelo corredor principal, mais pedreiros estavam trabalhando, máquinas estavam colocando cerâmica de primeira qualidade tanto no chão quanto nas paredes, e por fim encontrei um grande salão com chão de madeira e espelhos, maiores do que todos anteriores, aquela sala realmente chamava a atenção do corpo para bailar.
          Eu fiquei olhando cada detalhe, observei os dois pianos localizados em cada ponta. Dei uma pirueta simplificada no meio da sala, mesmo sem estar com roupas apropriadas para fazê-la, e assim continuei observando, realmente eu me senti com muita mais liberdade apenas de entrar naquele local, poderia ser uma boa jogada, ainda considerando o que Danielle havia dito sobre ganhar mais do que onde eu estava, e é claro, conseguir tirar a melhor forma de mim.
          - Gostou? – Danielle perguntou para mim me dando um grande susto.
          - Ah! É... Eu adorei, é um lugar perfeito para dançar.
          - Eu lhe disse que criaríamos artes que ninguém havia criado antes, e é isso que vamos fazer Júlia, mas você terá que trabalhar duro, se esforçar muito, as garotas e rapazes que chamei, são do mundo inteiro, leves e com fácil movimento, até onde eu sei você continua sendo a Libélula.
          Algumas garotas começaram a encher a sala, rapazes também, nenhum parecia ser do mesmo país, e notando as conversas, ainda estavam acabando de se conhecer, eles não estavam nervosos, estavam rindo, mesmo estando diante de uma da maior bailarina dos últimos tempos, eu nunca conseguiria ter essa calma, eu ficava com inveja desse psicológico.
          - Pessoal, está é Júlia. Diferente de vocês, ela não é um pássaro, no ENB a chamavam Libélula.
          Quando Danielle disse isso, achei que todos ririam como em qualquer outro lugar aconteceria, mas eles mantiveram-se em silêncio, em completa disciplina, agora eu via que mesmo não estando nervosos, tinham um respeito muito grande por ela, tão grande que sabiam de tudo que ela gostava de ouvir e do que ela não gostava, e riso em seus discursos, era algo repugnante e catastrófico.
          - Apesar de tudo isso, ela tem algo a mostrar para nós, eu a escolhi por sua atitude no tempo que eu estava no English National Ballet, e vocês vindas do Bolshoi, Kirov, Royal, Nova York, sabem muito bem do valor de garotas com personalidade, por isso vamos começar o nosso trabalho.
          Elas me receberam incrivelmente bem, gostaram de mim, queriam que eu melhorasse, que eu aprendesse mais, usavam sua experiência e habilidade para me dizer aprendiz, e como todo aprendiz, alguém que poderia alcançar todas que estavam ali, com isso fiquei lisonjeada, esperando apenas mais palavras da grande bailarina. 

Um Comentário

  1. Nossa eu quero muito ler esse livro. Primeiro porque sempre quando tem libélula no nome eu me interesso e segunda a CAPA, AMO ballet, por mais que eu não o pratique, eu amo ver apresentações!

    Bom espero comprar este livro!
    Adorei a resenha.
    Parabéns!

    Beijos

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