A virada mais estranha de minha vida não demorou muito para acontecer, não fui muito forte, não o suficiente para aguentar toda aquela pressão sozinha, e a imagem de garota perfeita, educada e bonita, já não estava valendo mais nada para mim. De mal a pior, eu  me sentia realmente deprimida com a situação, comecei a faltar nos ensaios, e não demorou muito para que Danielle tomasse suas providências.
          Quando cheguei ao Koshitova ballet, uma das secretárias disse que ela estava me esperando na sala da coordenadoria do local, já me senti pronta para o que viria, broncas fortes, afinal eu conhecia muito bem o estilo dela, e não era para menos, eu não estava fazendo por merecer aplausos, meu rendimento estava completamente estagnado, a proposta como todos sabem, não era essa.
          Entrando naquela sala cheia de tapetes, mesas, cadeiras, madeiras e livros, fui olhada por ela diretamente nos olhos, e agora que havia caído a ficha, eu estava ali para ser torturada, eu estava ali para ser espancada emocionalmente, então seria bom relaxar, pois era certo que eu voltaria aos brandos, já estando na situação da qual eu estava, seria mais fácil pensar no suicídio de uma vez por todas. 
          - O que há com você? – Ela perguntou tranquila, tão tranquila que me assustou. – O que está acontecendo Júlia? Espero que isto não seja culpa de seus sentimentos.
          - Danielle, me desculpe! – Respondi de modo singelo. – Não estou conseguindo me concentrar o suficiente para treinar.
          - Talvez você queira um tempo. – Agora sim ela alterava a voz. – Se você quiser eu coloco você de férias, você pode voltar para o Brasil e ficar com seus amigos, relaxar um pouco, e dar aulas de ballet para uma academia de meninas mimadas de um bairro classe média qualquer, até morrer.

          - N-não é isso...
          - SAIA DAQUI! Só quero vê-la quando estiver pronta para dançar, enquanto estiver deixando seus assuntos psicológicos interferirem na sua vida profissional, você pode ir trabalhar em um mercado, pois você ainda é uma menininha mimada, duvidosa, capacitada, porém não consegue acreditar nisso, é fraca e deixa qualquer frescura influenciar em sua vida, lhe garanto que desta forma não terá futuro como bailarina, nunca dançara onde dancei, e nunca será como fui.
          Eu não pude dizer mais nada, ela apenas apontou para a porta, foi em direção à saída e abriu-a para mim esperando com que eu saísse o mais rápido possível, e o que eu faria? Nada, a situação não envolvia só alguém sem poderes na companhia e a dona da companhia, mas também envolvia alguém que não conseguia dançar ao menos a metade do que a outra dançava.
          Voltei atordoada para a casa, eu não conseguia fazer nada para me fazer sentir bem, deitei em minha cama e Elisa veio até mim, ela me deu um abraço, percebeu que eu não estava tão bem. Pela primeira vez a garota não me fez pergunta alguma e ficou apenas esperando eu dizer algo, infelizmente eu não consegui dizer nada.
          Ninguém está pronta para ser psicologicamente destruída, chamada de menina mimada ou dessas coisas, mesmo sabendo que tudo o que a pessoa estava dizendo era verdade. Eu ainda era uma menina mimada, e pra quem é, não é possível aceitar o que os outros estão dizendo ali no momento, você só se sente mal, não existe crítica construtiva, então para que fazê-las como Danielle as fez?
          Certo, eu não iria ligar para a Layla, eu já estava cansada de perturbá-la e suas opiniões comuns sempre as mesmas, eu já sabia quais eram, então não seria necessário ouvir mais algumas palavras das quais me fizesse ficar com mais e mais raiva a cada instante.
          - A vida nem sempre sai como você imagina Elisa. – Comecei a falar com minha irmã. – Na verdade quando tudo parece estar perfeito, acontece algo para atrapalhá-la.
          - Mas agora você tem dinheiro, tem sua carreira. – Ela retrucou. – Para que desperdiçar tudo por causa de um homem? Existem milhares de homens que matariam para estar com uma garota como você.
          - Existem é? Pois eu não consigo vê-los.
          - É obvio. – Ela riu. – Você não consegue enxergar um palmo a sua frente, você fica tão preocupada com tantas coisas ao mesmo tempo, que não enxerga a realidade.
          E era uma pré-adolescente dizendo para mim o que eu deveria fazer, mas isso não foi o problema, o problema era uma pré-adolescente ter razão sobre mim, uma mulher que dançou em uma companhia internacional, e ainda mais, uma mulher que dançou em duas companhias internacionais, conseguiu fazer a vida financeira guinar de uma hora para a outra, coisa que quase nenhuma pessoa consegue, mas como disse Danielle, uma menina mimada, uma menina que duvida de si, é incrível como essa vida é estranha, como às vezes pessoas mais novas com menos experiência, sabem mais das situações do que nós.
          Acontece, e não são poucas vezes, você está sempre cercado de mil portas, mas apenas uma te leva ao sucesso, enquanto todas as outras estão abertas com um passe livre, aquela única porta está trancafiada, com milhões de cadeados a serem abertos, milhões de problemas a serem resolvidos, e se ainda achar fácil, há um guarda-roupa bloqueando a sua passagem, algo que não é tão simples derrubar.
          Ignorando todo este meu sofrimento, a ideia de poder estar grávida ainda me preocupava. Pensei várias vezes em ir para as clínicas, porém, não era algo bom a se fazer, pois eu não queria receber a notícia de que isso iria acontecer, meus maus pressentimentos eram mais fortes do que tudo, no fundo, eu sabia que estava gravida.
          Certo dia eu estava tranquila, bem mais relaxada para tomar coragem, e então fui até a clínica particular mais próxima, o médico me examinou, fez alguns testes, e por fim me disse que precisava de um aguardo. Não muito tempo depois, ele veio até mim com uma expressão sombria, bem, era a hora da verdade, tudo o que eu precisava para tomar a maior decisão de minha vida, estava relacionada aquela resposta, e ela veio:
          - Júlia! Eu tenho uma má notícia. – Ele disse conhecendo completamente a minha situação, e os motivos do porque seria tão ruim um filho. – Você está grávida menina.
          Não pude responder, não haveria motivo algum para começar chorar ou reclamar, o mais importante agora, era correr, subir em um prédio alto, manter-se tranquila e por fim se jogar. Deixei meus pertences na própria sala hospitalar, eu estava decidida, estragar a vida marcando bobeiras, não é uma obrigação, é uma opção, eu tive escolhas e escolhi ter feito tudo errado, agora estava na hora de arcar com todas as consequências de meu destino, e morrer deixando esta vida sem graça.
          Lá fui eu, correndo pelas ruas de Londres, eu não precisei procurar muito por um prédio, eu já tinha em vista o próprio complexo do ENB, e então entrei nele como quem não queria nada, ninguém me viu no momento, subi todas as escadas até chegar na parte mais alta, caminhei em direção as beiras do telhado, pronta para me despedir desta vida cruel, estiquei os meus braços, comecei a pensar em todas as possibilidades de continuar a minha vida daquela forma, não encontrei nenhuma, e por mais que eu tivesse dinheiro, carreira e ainda jovem, eu não estava feliz, eu não estava sendo feliz, por que tudo isso afinal? Eu amava o balé, não havia sentido, eu coloquei toda a minha vida em segundo plano, pois eu quis, eu coloquei toda a minha alma nisto, e agora eu vejo, valeu a pena, porém desperdicei ficando gravida.
          Olhei para o céu e para o chão, respirei profundamente, eu só precisava de um ultimo impulso que tirasse meu medo, tentei imaginar, tentei pensar em quantas pessoas se suicidavam por minuto, talvez não fosse tão difícil, seria apenas se jogar, pular, cair e morrer, sem mais. O instinto de sobrevivência lutando contra o meu desejo, e por fim, tomei a minha decisão final. 

2 Comentários

  1. Promoção Circulo secreto la no blog http://eucurtolivrosrecife.blogspot.com/

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  2. Olá.
    Não conhecia este livro, me parece interessante.
    Abçs.

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