Talvez a minha história não tenha um final tão produtivo quanto deveria, mas o fato é que não tive coragem de pular. Eu abandonei a minha carreira e tive a minha filha, Sofia era seu nome. Naquela época tudo foi tão difícil para mim, mas eu sabia que se eu tomasse a decisão correta, tudo iria se ajeitar.
          Hoje não posso dizer que vivi como eu queria viver, mas posso dizer que vivi um pequeno intervalo de tempo que qualquer uma dançarina gostaria de viver, isto me consola um pouco, e outro fator importante, foi que minha irmã se interessou pela dança, se tornou dançarina profissional de Tango, dá aula em diversas academias e uma delas é o Kochitova ballet, mas independente de tudo isso, tenho uma vida extremamente feliz, a felicidade não se resume apenas naquilo que nós queremos fazer, às vezes elas vem de coisas muito pequenas e grandes ao mesmo tempo, assim como um filho.
          Não quero dizer que as pessoas devam pensar nisso, na verdade, ainda tenho aquele pensamento de que poderia ter sido maravilhoso, e até hoje eu poderia estar dançando, mas também entendo que não é só uma coisa que pode me fazer feliz, são um conjunto de fatores, e eu não estava feliz dançando, eu não estava feliz vivendo daquela maneira.
          Nunca abandonei o ballet, ainda dou aulas em diversas partes do planeta, hoje sou coreógrafa do Kochitova e ainda tenho minhas próprias academias denominadas Julia’s Ballet, espalhadas por todas as partes do mundo, Paris, Roma, Veneza, Nova York, Londres, São Paulo, Melbourne entre outras milhares de capitais mundiais, tenho muito mais dinheiro do que eu teria dançando, não que isto seja importante, mas se também serve de consolo, o mundo dos negócios vale muito mais do que qualquer outro mundo se você está interessado em fins lucrativos.


          A verdade também é que, estou adorando acompanhar a carreira de minha irmã, ela é uma das melhores que já vi dançar e hoje posso dar opiniões para qualquer pessoa, hoje posso dar opiniões para todos os jornais, revistas e redes televisivas, sou alguém muito mais importante do que eu seria se ainda estivesse dançando, e sim, eu me sinto muito feliz.
          Eu nunca pensei que eu diria isto com essas palavras, mas o ballet é um mundo praticamente impossível de se entrar, e quando entra, ainda tem que tomar todos os cuidados para que ele não acabe de forma completamente indesejável. Para entrar neste mundo, você precisa de esforço, trabalho duro, muito pesado, e isto significa que vai ser uma grande bailarina? Nunca! Você nunca saberá se será uma grande bailarina até ser ou não ser, quem decide não é você, quem decide sempre serão aqueles que estão em categorias superiores a você.
          Deve-se tomar cuidado nas ilusões, é muito difícil mesmo ser uma bailarina, você terá problemas psicológicos, terá problemas físicos e pessoais, ainda assim terá que chegar ao palco e mostrar o seu melhor, se você não mostrar o seu melhor haverá outra garota que mostrará. As escolinhas de ballet ensinam um sistema que não ocorre nas companhias, nas companhias que valem a pena dançar você sofre, você não tem moleza, você é facilmente descartável e substituível, acredite, se você erra, haverá sempre uma garota que não erra pronta para entrar em seu lugar, se você acerta, sempre haverá uma garota que acertará melhor do que você.
          Nenhuma de nós, ou quase nenhuma de nós se tornará um Polina Semionova, Svetlana Zhakarova, Maria Danilov, Ulyana Lopatkina e muito menos uma Anna Pavlova, é preciso abrir os olhos e tomar cuidado com os nossos sonhos, pois ser a árvore de um Kirov Ballet já é definitivamente difícil, então querer se tornar uma dançarina individualmente notável, é um desejo falho para quase todas as meninas, principalmente da América.
          Não estou dizendo que é impossível, para mim tudo é possível, só estou dizendo que as coisas não acontecem como na ilusão, eu vivi tudo isso e estou vivendo, esta é a minha vida, está sou eu, eu estive presente nos ballets, sou dona de diversas academias e sei que quase todas as meninas que pagam para dançar, principalmente no Brasil, não estão preparadas para enfrentar os desafios de uma companhia, pois não chegam a treinar ao menos 4 horas por dia e ainda passam a vida reclamando de dores, lesões, dizendo que não estão aguentando a rotina e está quase morta.
          Como em todos os outros ramos de profissionais, é preciso notar que cada centavo do dinheiro que os artistas ganham a mais que os trabalhadores comuns, são válidos. Para chegar lá, é preciso provar para você mesma que se estiver ganhando bem, é porque você merece, mesmo que todos os trabalhadores das classes sociais menores insistam em dizer que você não faz nada, porque você faz, se você acreditar que a vida da arte é mais leve que a vida do “trabalho pesado” você está perdida ou perdido, pois não é, a vida é dura em qualquer ramo, e para ser reconhecido em qualquer um deles, é preciso morrer de trabalhar.
          Assim encerro toda esta jornada que foi feita, espero que Elisa continue dançando como ela dança, espero que Sofia comece a dançar o mais rápido possível, afinal ela já brinca na Baby-Class, e espero que todas as garotas que gostam de ballet e querem se tornar uma verdadeira bailarina, saibam o quanto elas precisarão batalhar, o quanto elas precisarão sofrer e o quanto serão criticadas no longo caminho até a vitória. Não é fácil, você terá que fazer grandes salários parecerem MUITO POUCO, perto de tudo o que você faz, pois se achar uma só vez na vida que é fácil ou que você vai conseguir só com o seu desejo e as aulas de duas ou três vezes por semana... Você está fora da realidade. 

2 Comentários

  1. Boa noite!
    Este livro eu não conhecia e me parece muito interessante.
    Abçs.

    http://devoradordeletras.blogspot.com/

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  2. Ok...
    Só li o último capítulo, mas vi q a história deve ser bem legal!!

    Beijaum

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